Reivindicações, envelhecimento digno, combate ao isolamento e acesso à Saúde estiveram em discussão numa sessão do projeto europeu SILVERights, que passou por Albergaria-a-Velha para ouvir a população mais velha e identificar obstáculos à participação cívica e social.
“Envelhecer com dignidade”, “ao respeito”, a que “os velhotes fossem tratados com mais carinho”, a “mais acompanhamento”, ao acesso a uma “saúde mais célere”, a “proteção social e económica” e “a ensinar e aprender”. A lista de direitos foi elencada pelos participantes no primeiro exercício da sessão de auscultação do projeto SILVERights – em tradução livre ‘direitos grisalhos/prateados’ – que decorreu, esta tarde, na Biblioteca Municipal de Albergaria.
O projeto europeu está a ser desenvolvido em Portugal e na Roménia e visa construir um “retrato cívico” dos direitos das pessoas mais velhas, recolhido ao longo dos 15 meses de implementação, um período que termina em março de 2027. Nesta fase, a iniciativa encontra-se na primeira etapa – uma série de sessões de sensibilização e consulta do cidadão, tarefa que motivou a visita a Albergaria.
A nível nacional o SILVERights – Bridging Generations for Rights, Accountability and Democratic Participation é implementado pela cooperativa Aproximar, com sede na Amadora e foco na Inovação Social, trabalhando igualmente em áreas como educação, empreendedorismo e reinserção de ex-presidiários.
Joana Portugal e Jéssica Carvalho, gerontólogas da Aproximar, explicaram que o projeto, co-financiado pela União Europeia, tem como objetivos: reforçar a capacidade dos membros da comunidade para defender e promover eficazmente os direitos dos idosos, identificando casos de abuso e negligência ou outras violações dos direitos, compreendendo os instrumentos jurídicos e cívicos; criar oportunidades de colaboração, diálogo e aprendizagem ativa entre membros da comunidade de diferentes gerações; e promover a literacia cívica sobre os direitos dos idosos.
Saúde rápida e participação a gosto
A primeira atividade da sessão pediu que cada participante se apresentasse, com nome próprio e morada, e elencasse um direito imprescindível, mesmo que a sua execução na sociedade não fosse plena. Para além dos exemplos enumerados no primeiro parágrafo deste texto, falou-se da importância de adaptar os serviços de Saúde aos mais idosos.
Uma das propostas, feita por parte de uma participante enfermeira, foi a criação de uma ‘via verde idoso’ para idas às Urgências, considerando o desconforto físico acrescido que a maioria da faixa etária sente em longos momentos de espera e a confusão mental adicional que pode provocar em quadros de demência.
Ainda no campo da Saúde, uma utente desejou que os serviços tivessem uma melhor coordenação entre si. “É muito cansativo estar sempre a dizer a mesma coisa e são muitas perguntas, especialmente depois de um período de espera”, desabafou.
No campo do combate ao isolamento social, uma técnica de uma IPSS local chamou a atenção para a luta contra o “isolamento indesejado”, chamando à atenção para a importância de adaptar as atividades ao idoso e ao próprio lugar. “Não faz sentido pegar num idoso que sempre viveu no campo, metê-lo no carro e levá-lo para uma cidade para ouvir uma música alta que não lhe diz nada”, exemplificou.
Mais participação e mais compaixão
A segunda e última atividade da sessão dividiu os participantes em quatro grupos e pediu que identificassem barreiras estruturais e/ou do quotidiano que comprometessem um respetivo direito do idoso.
Falta de mobilidade, iliteracia, morosidade e custos do sistema jurídico e complexidade dos processos legais foram identificadas como barreiras de acesso a serviços públicos e direitos cívicos como apresentar uma queixa na Câmara Municipal ou fazer uma denúncia de maus-tratos ou negligência.
Como impedimentos a este último direito, foram igualmente referidos a possível dependência do agressor, seja como cuidador ou por dependência financeira ou emocional. Fatores culturais como “o que se passa em casa fica em casa” e a desvalorização do ato de violência foram igualmente referidos.
Outra das preocupações levantadas pelos participantes foi a mal-entendida perda de autonomia e personalidade dos idosos. Foi deixado um apelo para que se respeitem as vontades e preferências dos mais velhos. “As pessoas ao envelhecer não deixam de saber o que gostam de comer ou de ver na TV. Continuam a ter necessidades, sonhos e ambições”, alertou a técnica de uma instituição concelhia.
Mudar “um pedacinho de cada vez”
Apesar da identificação de falta de quantidade e diversidade na oferta de atividades para os mais velhos como problema global, o Município de Albergaria-a-Velha foi elogiado por quebrar a tendência criticada pelos participantes – sendo a maioria da audiência composta por alunos da Universidade Sénior Educalba e beneficiários do Programa Idade Maior, projeto da autarquia dedicado ao envelhecimento ativo.
Como sugestão de melhoria, os participantes desejaram que a oferta da cidade se estendesse a todas as freguesias do concelho “para que todos tenham os mesmos direitos”. No entanto, o maior desafio, na visão dos grupos, é chamar a malta. O medo do desconhecido, o receio do julgamento dos outros e o risco comodismo afastam os idosos das atividades em grupo dinamizadas pela Câmara e IPSS locais.
Por fim, as gerontólogas da Aproximar pediram “soluções realistas” para os problemas identificados, para “mudar o mundo um pedacinho de cada vez”. Para combater o isolamento, foi proposta a criação de um “sistema de entrada” (não literal) nos lares de quem vive sozinho. Para além do acompanhamento pelos serviços sociais, uma participante deu como exemplo de boa-prática “um projeto, que já existe, em que os jovens estudantes vão a casa dos idosos ver como estão, ouvi-los e perguntar se precisam de alguma coisa”, relatou.
Para resolver a dificuldade de acesso aos serviços, ficou o desejo de um atendimento mais paciente e empático, ciente das complexidades da idade e das limitações dos lugares. “Eu vejo funcionários a perguntar a um idoso se não recebeu nenhum SMS e a pessoa vive num sítio sem rede ou não sabe usar o telemóvel”, relatou uma das participantes.
O regresso ao analógico para documentação importante – receitas médicas, por exemplo – foi igualmente referido como melhoria de serviços para a população mais velha. “Ninguém é obrigado a ter telemóvel ou a aderir a um serviço que não quer. Ninguém é obrigado a dar dados para aceder a um serviço que nem quer ter. As pessoas não têm de ter redes sociais para saber dos eventos”, foi dito.
Para ajudar em processos mais complexos, como situações de denúncia de negligência ou casos de burla, foi sugerida a atribuição de uma “pessoa de referência” a cada idoso que necessitasse de apoio nestas ocasiões.
Viver mais e melhor
Catarina Mendes, vereadora da Ação Social da Câmara Municipal de Albergaria, encerrou a sessão com um agradecimento à Aproximar e um elogio ao SILVERights por permitir compreender o “impacto concreto” das políticas de envelhecimento da autarquia e por servir de guia para ações futuras.
“Esta é uma amostra pequena mas significativa – é diversa, acessível e participativa nas iniciativas do Município. Este é um momento decisivo para determinar o que queremos fazer no futuro”, reforçou a vereadora.
A autarca, grata pelos elogios às atividades municipais e ciente do trabalho desenvolvido, agradeceu diretamente à gerontóloga Mariana Letra e assegurou que ter gerontólogos nas autarquias faz diferença. “Dá crédito ao que fazemos. É a presença do conhecimento científico no terreno e ajuda a que aquilo que fazemos tenha consequências reais”, frisou.
Catarina Mendes afirmou que a missão inicial de “desassossegar e fazer mexer” está praticamente cumprida e importa agora envelhecer com qualidade. “O envelhecimento aqui já é ativo, agora queremos colocar a tónica no envelhecimento saudável. As estatísticas dizem-nos que vamos viver mais e é importante ter mais saúde por mais tempo”, indicou a vereadora, reforçando que a ação requer uma monitorização atenta da saúde de cada um.





























