Fez uma limpeza à casa e quer fazer uma doação? O espírito solidário é uma mais-valia inegável para a vida em comunidade, mas o impulso de dar sem olhar aos meios tende a dificultar a vida das entidades que gerem o resultado desta boa intenção. A falta de meios para fazer a triagem e as limitações físicas de armazenamento pedem doações mais precisas e direcionadas, sem nunca descartar a gratidão por quem dá o que tem. Saiba como doar sem desajudar.
Mudanças de estação, mais tempo livre nas férias ou mesmo um fim de semana de limpezas podem resultar numa vontade de esvaziar um pouco a casa e num desejo de transformar o resultado numa doação. Roupa que já não se usa, brinquedos com os quais ninguém brinca, mantas em excesso ou até calçado que não vê pés há meses são apenas alguns dos bens que poderá querer doar.
A boa intenção de fazer uma doação com aquilo que não se utiliza é bem vista pelas associações e entidades que trabalham no terreno, mas existe cada vez mais a necessidade de articular o trabalho entre quem faz as doações e quem trata delas. O Jornal de Albergaria conversou com quem está no meio há vários anos para que a sua doação possa representar uma ajuda direta e não um encargo acrescido, com poucos resultados concretos.
A doação de bens – sobretudo roupa – que não estão em condições de ser recuperados ou utilizados é um problema identificado por todos os representantes com quem conversámos: Osvaldo Tavares, coordenador da Cruz Vermelha Portuguesa de Águeda; Manuel Dinis, pároco de Albergaria-a-Velha; e Catarina Mendes, vereadora da Ação Social.
A falta de pessoal para fazer a triagem, o tratamento e o reencaminhamento dos bens foi igualmente identificada por todos, bem como a inexistência de um espaço físico suficientemente grande para armazenar a totalidade dos bens doados, sobretudo em condições ideais. Por estas e outras razões, estas entidades beneficiam, em muito, de uma pré-seleção e de alguma pesquisa por parte de quem faz as doações.
Aqui seguem algumas dicas práticas de como fazer este trabalho de casa:
- Doar a quem e quando?
É importante confirmar a identidade e a legitimidade da entidade que pede os bens. Se sentir que algo não bate certo, procure online pelos contactos — números de telefone, moradas ou endereços de e-mail — e confirme a informação através de fontes oficiais. A ausência de presença na comunidade e a falta de informação pública e acessível são sinais a que deve estar atento.
Se a entidade for conhecida e tiver uma estrutura formal — como uma Câmara Municipal, o Banco Alimentar, a Cáritas ou a Cruz Vermelha Portuguesa — o momento ideal para fazer a sua doação é quando existe uma campanha a decorrer, por exemplo, na sequência de uma catástrofe ou em períodos do ano de maior necessidade.
Nestas alturas, a necessidade é maior e as entidades que recolhem os bens têm oportunidade de reforçar a capacidade de resposta para gerir as doações. Os bens não devem ser deixados à porta das instituições sem contacto prévio.
- “Mas eu quero é doar agora!”
Nesse caso, nunca o faça sem contactar primeiro a entidade para a qual pretende fazer a doação. É essencial compreender se o que pretende entregar corresponde a uma necessidade existente na comunidade. Por vezes, a intuição e as boas intenções não bastam.
É importante ligar necessidades e vontades de doação. Se são pedidos brinquedos, não faça doações de roupa. Se são pedidas roupas de criança, não envie roupas de adulto. Pode sempre entrar em contacto para confirmar se existem necessidades adicionais que não estejam listadas nos meios de comunicação oficiais.
Antes de entregar qualquer bem, faça também uma seleção em casa: confirme se está limpo, completo e em condições de ser utilizado por outra pessoa. O que já não serve para ninguém não se transforma numa boa doação apenas por ser entregue a uma instituição.
- Doar na comunidade
Uma passagem de olhos e algumas chamadas pela lista de associações e IPSS locais podem ajudá-lo a decidir qual o melhor destino para a sua doação. Para uma busca rápida, pode consultar o Guia de Recursos elaborado pela PRAVE — Associação de Promoção de Albergaria-a-Velha.
O Município de Albergaria-a-Velha desempenha, por natureza, este trabalho de articulação. A vereadora da Ação Social deu como exemplo recente a comunicação feita de imediato entre a autarquia e o secretário de Estado das Comunidades Portuguesas, Emídio Sousa, na sequência dos violentos sismos na Venezuela. Nesta ocasião, estavam a ser aceites apenas bens médicos, precisamente pela falta de locais para armazenar outro tipo de doações.
No caso da Cruz Vermelha Portuguesa, é importante esclarecer que não existe nenhuma delegação ou ponto de recolha no concelho de Albergaria-a-Velha. O Jornal de Albergaria teve conhecimento de que alguns cidadãos foram informados de que o Centro Social e Paroquial de Albergaria era um ponto de recolha para bens destinados à CVP. Não é verdade.
No entanto, o Centro Paroquial trabalha em parceria com a Cáritas para assegurar cabazes alimentares a famílias necessitadas, uma necessidade permanente, sendo estes agregados identificados pela autarquia e considerando que surgem sempre necessidades inesperadas.
O padre Manuel Dinis indica que são sempre bem-vindos bens não perecíveis, como conservas, arroz, massa, azeite e óleo. As doações em dinheiro são convertidas na compra de bens alimentares perecíveis — legumes e fruta — ou de outros bens raramente doados, como o azeite. O pároco indica que têm bastante roupa para quem necessitar, pelo que esta não é, de momento, uma prioridade.
Para fazer doações diretas à CVP pode recorrer à CVP de Aveiro ou à de Águeda. A primeira indica que qualquer doação, à exceção de vestuário, é bem-vinda, mas recomenda o contacto prévio. Se pretende doar roupa, a delegação de Águeda conta agora com uma Loja Social onde pode deixar a sua doação.
As roupas e outros bens — como brinquedos, calçado ou peças de mobiliário — são vendidos a toda a comunidade por um valor simbólico e oferecidos a quem não os consegue pagar. O valor angariado reverte para a vertente de apoio alimentar da Cruz Vermelha, concretizada em parceria com o Banco Alimentar Contra a Fome.
- Lixo é lixo — procure alternativas
Se tem roupas rotas, brinquedos partidos ou calçado com danos severos, não os entregue a uma instituição de solidariedade apenas porque não sabe o que fazer com eles. Quando um artigo já não tem condições para ser utilizado, a sua entrega pode transformar uma boa intenção num encargo para a entidade que o recebe.
Antes de deitar fora, procure uma segunda utilização. Uma peça de roupa velha pode, por exemplo, ser transformada em panos de limpeza ou aproveitada para outros fins domésticos. Também alguns tecidos podem ser reutilizados para camas ou mantas de animais, desde que sejam adequados e seguros.
Quando já não é possível reutilizar, os têxteis devem ser encaminhados para os pontos de recolha existentes. Em Albergaria-a-Velha, o Município disponibiliza vários pontos de recolha de têxteis no concelho.
A regra pode ser simples: antes de doar, pergunte; antes de deitar fora, procure reutilizar; e, quando já não for possível reutilizar, encaminhe o resíduo para o circuito adequado. Uma doação responsável começa por perceber aquilo de que o outro realmente precisa.
Contactos úteis
- Serviço de Ação Social do Município de Albergaria-a-Velha – 234 529 300
- Cáritas de Albergaria-a-Velha – 966 207 394
- Cruz Vermelha Portuguesa Delegação de Águeda – 234 602 642
- Cruz Vermelha Portuguesa Delegação de Aveiro – 234 426 463
















