Partilhar conhecimento, uniformizar processos e o desejo de manter a proximidade como pilar central de prestação de serviços são as prioridades que unem as Unidades de Cuidados na Comunidade da Região de Aveiro, reunidas hoje em Albergaria para discutir boas-práticas e perspetivar o futuro. A falta de meios e as assimetrias geográficas no acesso à Saúde foram duas das grandes preocupações apresentadas.
“Para fazer melhor amanhã, temos de partilhar conhecimento hoje”, afirmou Carlos Coelho, presidente da Câmara Municipal de Albergaria-a-Velha, na abertura do 1.º Encontro das Unidades de Cuidados da Comunidade (UCC) da Unidade Local de Saúde da Região de Aveiro (ULSRA).
Com honras de ser a primeira UCC a organizar o evento, Albergaria expressou o desejo de ter mais valências no Centro de Saúde da cidade e reforçou a vontade de reabrir o Centro de Saúde de Ribeira de Fráguas, encerrado desde 2018, para que a zona norte do concelho fique servida de acordo com as necessidades da população.
Deste modo, este espaço geográfico teria um funcionamento semelhante ao que já se verifica a Sul – com a USF Beira-Vouga a ter polos em Angeja e Alquerubim; sendo que, a Norte funcionariam os centros da Branca (já existente e a precisar de reforço de profissionais) e o polo na Ribeira.
Os desejos foram expressos pelo edil que lembrou os investimentos feitos no Centro de Saúde de Albergaria e na ULS do Baixo-Vouga, cada um a rondar 1 milhão de euros. Carlos Coelho despediu-se com a certeza de que “quanto melhores forem as condições físicas dos espaços de Saúde, melhor poderão prestar cuidados e com a dignidade merecida”.
O presidente da Câmara afirmou que, no que couber às competências da autarquia, as UCC e todos os profissionais de Saúde podem contar com Albergaria. “A Saúde é um bem precioso, talvez a maior riqueza do ser humano e o maior legado que um autarca pode deixar”, reforçou Carlos Coelho.
A abrir a sessão, António Mila, coordenador da UCC de Albergaria, afirmou a concretização deste 1.º Encontro como “a realização de um sonho antigo” onde se ambicionam partilhas com vista a melhorias contínuas. O coordenador anunciou que o próximo encontro anual será organizado pela UCC Grei de Águeda e desejou que as sessões resultem em “mais Saúde e mais qualidade de vida” para a população.
Proximidade e resistência
Em representação da Equipa Coordenadora Regional da ULSRA, a presidente do Conselho de Administração, Margarida França, reconheceu o atraso histórico do país na proximidade dos serviços de Saúde à população e louvou a criação das UCC como marco decisivo nessa viragem.
No entanto, lamentou ser impossível concretizar uma contiguidade pronta e real com apenas 3100 profissionais em toda a ULSRA. “Quem tem realmente essa proximidade são as Câmaras Municipais e as Juntas de Freguesia e são essas entidades que temos de ouvir para melhorar os serviços”, advogou Margarida França.
A presidente do Conselho nomeou a falta de recursos humanos como o principal desafio das UCC, sendo o conhecimento dos utentes e territórios a sua maior força. Margarida França lembrou que, ao contrário de outros setores, o problema da falta de pessoal na Saúde não se resolve com mais tecnologia – que exige, na realidade, trabalhadores qualificados para se servirem das novas ferramentas.
Catarina Mendes, vereadora da Saúde e Ação Social, confirmou a mais-valia da proximidade, não só entre as UCC e a população, mas entre o Município e as próprias Unidades. “Sabemos sempre com quem estamos a falar e com quem podemos contar”, sintetizou.
A vereadora estendeu a lógica do “trabalho em rede” para as diversas valências do Município relacionadas com a Saúde – por exemplo, a Ação Social e a articulação com as IPSS concelhias e a Educação no campo da educação para a Saúde numa perspetiva de prevenir a doença.
Catarina Mendes lembrou o “grande esforço e sobretudo a imensa motivação” necessárias aquando da transferência de competências do Estado para as autarquias no âmbito da Saúde e orgulha-se da resposta dada pelo Município.
Demência e cuidados continuados
Em representação da Equipa de Coordenação Regional do Centro de Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, o coordenador da estrutura regional, Manuel Oliveira, começou por lembrar a importância das Unidades de Cuidados na Comunidade na primeira linha de resposta a “pessoas, famílias e comunidades”, um trabalho que se tornaria mais fácil com “melhor desenvolvimento de estratégias e regulação de atividades”.
Neste campo, lembrou, como prioridade do SNS, o desenvolvimento da Comissão Executiva do Plano Nacional da Saúde para as Demências, que visa precisamente “criar condições para uma articulação efetiva e intersectorial entre as áreas da Saúde e Social” e “operacionalizar a Estratégia Nacional da Saúde na Área das Demências a nível regional e local”, como se lê na nota referente à primeira reunião da estrutura, em abril de 2025, publicada no website da SGMS – Secretaria Geral do Ministério da Saúde.
Para atenuar o elevado número de internamentos hospitalares e oferecer cuidados completos, em paralelo, Manuel Oliveira lembrou que será alargado a todas as ULS do país – incluindo a de Aveiro – a participação no projeto-piloto das Equipas de Cuidados Continuados Integrados (ECCI) que envolveu inicialmente as ULS de São João, de Santo António, de Matosinhos, de Coimbra e do Porto.
A iniciativa, inserida na Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, conseguiu, na fase inicial, cumprir o propósito de reduzir idas às urgências e reforçar o apoio ao domicílio. “Devemos evitar ao máximo a institucionalização de doentes e oferecer às famílias o apoio destas equipas”, resumiu Manel Oliveira.
O coordenador da estrutura afirmou que os resultados do projeto-piloto com as cinco ULS foram “muito muito positivos” em critérios como: aumento de satisfação de doentes e cuidadores, melhoria na perceção do estado de saúde do utente, redução de situações de emergência e necessidade de momentos de internamento.
Exemplo a seguir
O presidente da Associação de Unidades de Cuidados na Comunidade, José Lima, a fechar a manhã de intervenções, louvou o evento como “muito oportuno” e as UCC como “um dos pilares fundamentais do SNS”, onde “a ciência se encontra com a realidade concreta das pessoas, com profissionais que têm um profundo conhecimento do território”.
Com 298 Unidades em todo o país, oferecendo cobertura a 95% do território, José Lima reforçou que escassez e desgaste de recursos humanos continua a ser o maior problema das UCC. Ainda assim, reforçou que está nestas Unidades a essência daquilo que o SNS quer ser – “um serviço comprometido, justo, humano e sustentável”.
Ao longo da tarde, foram apresentados vários projetos de sucesso implementados pelas UCC da Região de Aveiro:
- Autogestão das Doenças Respiratórias – UCC de Albergaria-a-Velha
- ‘Tás-te a passar!?’ – UCC Grei
- Prática colaborativa interprofissional – UCC de Anadia
- Consulta de Aleitamento Materno – UCC de Aveiro
- Sem pingo de vergonha – UCC Cubo Mágico
- Cuidar de Mim, para Cuidar do Outro – UCC Laços de Mar e Ria
- Diabetes em Movimento – UCC Nós
- O Encontro com Alma e Afetos – UCC Terras da Ria
- Acompanhamento do cuidador/família em luto na ECCI – UCC Sever do Vouga
- Sinergia Positiva – UCC de Vagos

































