O recente caso de Vagos foi o primeiro no país em que uma criança tão nova matou a mãe. Voltou a ser tema se uma educação menos rígida ou a presença constante das redes sociais na vida dos jovens os torna alheios à realidade. Falámos com Joana Janeiro, psicóloga há quase 20 anos, que considera este tipo de ação como excecional e extrema, nunca provocada, de forma isolada, a partir dos ecrãs. A conversa foi muito além do caso.
É, para muitos, a primeira coisa que fazemos ao acordar e a última antes de ir dormir. Pegar no telemóvel é tão natural que nem sempre o fazemos por um motivo. Olhamos ou ficamos alerta sempre que salta a notificação de uma notícia, mais um like numa foto, um vídeo recomendado, uma mensagem de um amigo ou um e-mail de trabalho.
Quando estamos aborrecidos, os livros e filmes nem sempre ganham ao scroll infinito, alimentado por algoritmos que nos mostram cada vez mais do mesmo: do que concordamos e gostamos, sem grande motivação para nuance ou reflexão.
Nada disto é novo, mas é ainda desconhecido ou não consensual o impacto que tem no processamento de emoções nas novas gerações. Se tudo é imediato e ao gosto do freguês, para quê esperar? Ou ser contrariado? Como estão as gerações Z e Alfa (respetivamente nascidos entre 1997-2012 e 2013-2025) a agir perante a frustração e a negação do desejo imediato?
Para Joana Janeiro, psicóloga há quase duas décadas, com consultório em Albergaria, devem evitar-se generalizações. “Quando falamos em millennials, Z e Alfa, estamos a categorizar com base em pressupostos sociológicos e demográficos que consideram um contexto que não é igual para todos. Portugal urbano é muito diferente do rural e ainda mais se compararmos Portugal a Marrocos”, explicou.
No entanto, afirmou, partindo da base possível, que a geração Z foi a primeira a ser “muito marcada pela ambivalência” no olhar para a educação dos mais novos: há maior preocupação com a saúde mental no geral, mas ainda resquícios de “extrema rigidez” ou “castigos físicos” que alguns e a maioria dos seus pais experienciaram.
Assim, a primeira geração criada pela máxima “completamente centrada na criança” foi a Alfa. Navegar a severidade do passado e o laissez faire mais recente cria algumas complicações para pais e filhos. “Esta falta de limite e dificuldade dos pais em estruturar uma educação, criou a primeira geração realmente preocupada com a saúde mental, mas com maior dificuldade em, por exemplo, adaptar-se aos locais de trabalho”, exemplificou Joana Janeiro.
Em gerações anteriores, “era mais banal a exposição à frustração”. A vida, no geral, melhorou e os pais quiseram dar condições melhores aos filhos. No entanto, juntar esta progressão natural à “falta de regras claras” e à ausência de “exposição ao ‘não’” cria uma geração que terá mais dificuldades em lidar com a adversidade, explicou a psicóloga.
“A forma como lidamos com a frustração é aprendida. Há características individuais que o tornam mais fácil, mas é uma gestão aprendida”, defendeu Joana Janeiro. Todavia, não vale a pena frustrar as crianças de forma artificial, sendo que, há inúmeros momentos que vão ensinando lições aos mais novos, como a ausência dos pais, divórcios mal resolvidos ou pais presentes fisicamente, mas constantemente ocupados.
A chave, explicou Joana Janeiro, é saber, caso a caso, quando agir de forma contrária aos desejos das crianças, algo difícil para os pais que tentam, de forma bem-intencionada, suprir os défices das próprias infâncias, “quer seja a dar mais brinquedos ou comidas mais satisfatórias”.
Empatia aprendida
A presença constante das redes sociais é outro dos fatores que diferencia a Z da Alfa. Na primeira, estar no MySpace implicava “ir ao computador”, as redes não estavam lá sempre. Com todos os livros e cursos disponíveis sobre educação e com uma crescente preocupação pelo bem-estar da criança, os pais da geração Alfa têm na exposição excessiva ao digital um grande desafio – em relação aos filhos e, por vezes, no próprio comportamento.
“O digital é extremamente apelativo para crianças e pais. Temos pais, muitas vezes sobrecarregados, que acabam por delegar o entretenimento das crianças no digital. Vemos alguma resistência em quebrar estes ciclos. ‘Como é que vou fazer num restaurante se o meu filho não tiver um tablet?’. E, portanto, estas crianças correm o risco de sobre-exposição, de vício e de muito menor contacto social com o outro”, afirmou Joana Janeiro.
Este último, levado ao extremo, retira às crianças lições importantes sobre elementos base da interação humana, como a empatia, sobretudo se não for ensinada fora dos ecrãs. “Se eu não a empurrar e se eu não vir que chorou porque eu a empurrei, eu tenho muito mais dificuldade em perceber o alcance da minha ação no outro. Se isto é substituído por um tablet ou televisão, a aprendizagem vicariante não é a mesma coisa. Eu sensibilizo-me muito mais se isto acontecer em relação ao outro”, exemplificou.
Dopamina infinita
A exposição a conteúdo sempre disponível e apelativo intensifica uma caraterística já natural na infância: a dificuldade em adiar satisfação. “Se eu der uma goma a uma criança e lhe disser ‘vou-me virar e, se daqui a um minuto não tiveres comido a goma, eu dou-te outra’, nenhuma criança espera”, relatou Joana Janeiro.
E quando já não são crianças e crescem a consumir horas diárias de vídeos de segundos que não param de cair? O impacto de aplicações como o Tik Tok no processamento de informação do cérebro “ainda tem muito para estudar e perceber, mas terá alterações enormes neste processo de adiar uma gratificação”, na opinião da psicóloga.
“Nós temos aqui o circuito da dopamina – neurotransmissor libertado quando sabemos que vamos ter uma recompensa – que se ativa muito mais rápido e de forma muito mais intensa quando estou a ver TikToks ou Reels seguidos, todos de 5 a 15 segundos. Ficamos colados a ver o próximo. Este neurotransmissor quer sempre mais, a ativação vai crescer sempre mais e eu não vou conseguir parar. É um ciclo de vício em que não consigo adiar uma gratificação”, alertou a Joana Janeiro.
O “vício”, aliado à dificuldade natural dos mais novos para não querer esperar por satisfação, exige aos pais “uma ação muito contundente”. Ralhar e proibir tendem a não funcionar. Na experiência de Joana Janeiro, o melhor e mais eficaz é, com paciência e energia, oferecer alternativas, “começar a dar outro tipo de estímulos que ajudem a sair do digital”.
Não faças o que eu faço…
Dar o exemplo é igualmente central. “Quando os adultos têm carrinhos de compras online com um nível de consumo em que só se adquire porque é barato, rápido e imediato, também não estamos a conseguir adiar a nossa gratificação”, ilustrou Joana Janeiro. “Custa-me olhar para estas gerações como super problemáticas, quando somos nós que as estamos a formar”, resumiu.
Ser modelo para os filhos é também não mascarar emoções. Com conversas adaptadas à idade, Joana Janeiro recomendou transparência nos momentos mais vulneráveis, para ensinar às crianças que sentimentos como tristeza, desilusão e frustração são normais e, na sua maioria, passageiros e não destrutivos.
“Os pais, por vezes, dizem-me que gostavam de falar com os filhos sobre emoções, mas que eles não falam. Se eu hoje estou a chorar porque tive um péssimo dia ou porque me irritei, eu não tenho de inibir. Preciso de mostrar que estou triste e esgotada, mas amanhã vou estar bem. Isto dá às crianças um modelo de regulação emocional”, detalhou a psicóloga.
Nas escolas, Joana Janeiro é “completamente a favor de tirar o acesso às redes sociais a crianças e adolescentes”, mesmo no 3.º ciclo, sobretudo em escolas públicas para que não fiquem atrás dos colégios privados que já o fazem. Os “exercícios de matemática e as composições bonitas” não devem ser substituídas “pelas cores apelativas e barulhos dos tablets”.
Em casa, devem ser recuperados elementos como livros, jogos de tabuleiro, conversas sem distrações e incentivar convívio entre outras famílias. Se for preciso retirar o telemóvel contra a vontade da criança ou adolescente, deverá ser feito. “Eles vão ficar frustrados, mas é melhor essa frustração do que uma tristeza futura mais difícil de resolver”, indicou Joana Janeiro.
“Fazer diferente dá muito mais trabalho. queremos crianças resilientes e criativas, nós também temos de ser resilientes e criativos. Não há alquimia, é preciso ouro para gerar ouro. É perceber que não vamos ser perfeitos e que vamos falhar. Não é preciso a perfeição, é preciso um bocadinho de tempo, é preciso olhar”, afirmou Joana Janeiro.
Casos extremos
Susana Gravato, vereadora na Câmara Municipal de Vagos, foi morta pelo filho de 14 anos, com dois tiros. O jovem confessou o crime e foi internado em regime fechado, por decisão do Tribunal de Família e Menores de Aveiro. Joana Janeiro explicou que estas são situações extremas que não podem ser explicadas pelo uso excessivo de redes sociais, mesmo quando os conteúdos consumidos são extremos.
“Um miúdo pode estar exposto à tecnologia e isso não o leva a matar os pais. A questão da dessensibilização, até com os videojogos, não é consensual. Por volta dos 5-6 anos, as crianças sabem distinguir a ficção do real e podem até, já adolescentes, canalizar alguns impulsos violentos para aquele contexto e não o fazer na vida social”, informou.
O mais comum, afirmou Joana Janeiro, são situações de: “predisposição genética” (psicopatia); casos motivados por questões sociológicas (sociopatia), contextos como o isolamento social, não ter uma boa vida familiar ou não ter amigos.
Aos professores e médicos de família, Joana Janeiro recomendou uma atenção redobrada para situações de alerta no comportamento dos jovens como maus-tratos animais, consumo de substâncias, impulsividade extrema e questões familiares problemáticas. Aos pais, pediu que estivessem atentos aos exemplos que os filhos seguem nas redes sociais e ao acesso que tenham a armas dentro da casa.
No entanto, reforçou: “Nos casos de violência contra os pais, quando estamos a falar de pessoas com capacidade cognitiva normal e sem distúrbios de personalidade, há muita coisa à montante. São casos de exceção, estamos a falar de 1 por geração”. Fora dos homicídios, o cenário muda e há dados que começam a preocupar: segundo a APAV, houve um aumento de 27% nos últimos dois anos de queixas de agressão de filhos (18 a 65 anos) a pais, sobretudo a mães.

















