A primeira sessão da mais recente iniciativa municipal ligada ao envelhecimento foi dedicada à demência. Flávia Machado, investigadora da UA, apresentou noções básicas, esclareceu conceitos e respondeu às inquietações da população albergariense. Estar atento aos sinais de alerta, adotar um estilo de vida saudável e combater o estigma foram algumas das ferramentas essenciais que deixou à audiência.
Com o propósito de aproximar a comunidade académica da população mais velha, dando a conhecer projetos de investigação na área da gerontologia e incentivando a participação ativa nestas iniciativas, o Município de Albergaria-a-Velha apresentou, esta tarde, a primeira sessão da oficina “Conhecer para Cooperar”. A plateia contou com utentes de IPSS do concelho e participantes a título individual.
Catarina Mendes, vereadora da Saúde e Ação Social, explicou, no início do encontro, que o novo projeto surgiu após a auscultação da população mais velha sobre as atividades em que teria interesse em participar, dentro do leque de iniciativas que a autarquia oferece aos seniores.
“A população respondeu em linha com as recomendações da OMS: queriam falar de Saúde. A comunidade conhece bem as nossas atividades desportivas – com as piscinas municipais, a hidroginástica e a atividade física – e as focadas na cultura, com oficinas de teatro, música e trabalho manuais e faltava evidenciar a Saúde, que acabava por estar pendurada em todas estas vertentes. Tudo o que fazemos tem em vista promover o envelhecimento ativo e saudável”, afirmou Catarina Mendes.
Flávia Machado, investigadora do RISE-Health, do Departamento de Psicologia da Universidade de Aveiro (UA), foi a oradora da sessão “Demência, quem és tu?”, na qual apresentou o trabalho de investigação desenvolvido para além da “bata branca”, com o propósito de “conversar, resolver inquietações e motivar para uma vida mais ativa”.
A académica começou por explicar que são inúmeros os fatores que podem influenciar a propensão de determinadas pessoas ou populações para a demência, desde o local onde vivem à forma como se relacionam com os outros, passando por questões estruturais, como o investimento das autarquias em programas de envelhecimento ativo, ou por fatores socioeconómicos.
Para melhor compreender o significado do termo “demência”, Flávia Machado explicou a diferença entre esta condição e a doença de Alzheimer, frequentemente utilizadas como sinónimos. A oradora esclareceu que a demência corresponde a um conjunto de sintomas associados a um grupo alargado de doenças que provocam uma perda progressiva de capacidades cognitivas, sendo a doença de Alzheimer a causa mais comum. Esta caracteriza-se, entre outros aspetos, por alterações da memória.
Sinais de alerta
A palestra serviu para desconstruir mitos e combater o estigma em torno da demência, nomeadamente a ideia de que esta condição é uma consequência normal do avanço da idade. Flávia Machado explicou que, embora a dificuldade em guardar memórias recentes possa aumentar com a idade, os esquecimentos frequentes e as falhas no funcionamento cognitivo não devem ser encarados como normais.
Estar atento aos sinais de alerta pode ajudar a identificar precocemente o problema, algo que tende a ser dificultado precisamente pela normalização destes sintomas. “Colocar o ferro no frigorífico, não reconhecer que o sinal vermelho é para parar, deixar de conseguir fazer contas quando isso sempre fez parte da nossa vida, estranhar o vizinho que vemos há anos ou agir de forma agressiva quando sempre fomos amigáveis não é envelhecimento normal”, exemplificou Flávia Machado, com base em relatos que foi recolhendo ao longo dos anos.
Outro dos exemplos utilizados para ilustrar a diferença entre o envelhecimento normal e a demência foi uma ida ao multibanco. Enquanto é natural levar uma cábula com indicações sobre como pagar o IMI ou uma despesa pouco frequente, não é normal deixar de saber onde inserir o cartão na máquina.
Em síntese, a investigadora destacou os principais sintomas de demência: perda de memória, particularmente de acontecimentos recentes; dificuldade em planear ou resolver problemas; afastamento do trabalho e da vida social; perda da noção do tempo; desorientação em locais conhecidos; dificuldade em interpretar imagens visuais e relações espaciais; alterações de humor ou personalidade; e diminuição da capacidade de discernimento.
São também sinais de alerta a dificuldade em executar tarefas habituais; problemas de linguagem, como encontrar as palavras certas ou compreender o discurso; trocar objetos de lugar; alterações na marcha e na postura corporal; mudanças nas preferências alimentares e nos padrões de sono; e o desenvolvimento de comportamentos obsessivos.
Um diagnóstico atempado e o acompanhamento adequado podem ajudar a pessoa com demência a manter a autonomia e a qualidade de vida durante vários anos, à medida que a doença evolui e os sintomas se agravam. “É possível ir buscar os netos à escola, fazer o almoço ou até assistir a uma palestra como esta”, indicou Flávia Machado, referindo-se a casos em que o tratamento iniciado na altura certa fez toda a diferença.
A investigadora frisou que cada caso é um caso e que a complexidade do cérebro humano, aliada à diversidade de fatores que podem influenciar o desenvolvimento da demência, torna o diagnóstico complexo e raramente imediato. Por isso, é essencial a colaboração da própria pessoa, mas também de quem convive com ela de forma próxima e frequente.
Toca a mexer
Em Portugal, cerca de 240 mil pessoas vivem com demência. Na Europa, são 12 milhões, segundo os números apresentados durante a sessão. Flávia Machado sensibilizou a audiência para a importância de combater o estigma associado à demência, lembrando que ninguém escolhe ter os sintomas provocados pela doença, tal como ninguém escolhe ter uma doença física.
A utilização de termos como “louco”, “tolo” ou “demente” para caracterizar uma pessoa com demência deve, por isso, ser evitada. O estigma é um dos fatores que pode dificultar o diagnóstico atempado e adequado, ao atrasar a procura de ajuda.
A investigadora lembrou igualmente que os comportamentos associados à demência não são necessariamente controláveis ou intencionais, nem refletem obrigatoriamente aquilo que a pessoa está a sentir ou a sua personalidade. Esta foi uma mensagem dirigida aos familiares, amigos e cuidadores, para que tenham presente esta distinção nos momentos mais desafiantes.
Para ajudar Portugal a deixar o terceiro lugar entre os países europeus com maior percentagem de população com demência, Flávia Machado recordou as palavras da Associação Internacional da Doença de Alzheimer sobre a importância de procurar formas de combater esta e outras formas de demência: “nunca é cedo demais nem tarde demais”. As medidas preventivas devem ser adotadas ao longo da vida, mas continuam a ser importantes mesmo após o diagnóstico.
A investigadora citou um estudo recente que indica que 45% dos casos de demência podem ser prevenidos através da intervenção sobre 14 fatores de risco: baixa escolaridade, perda auditiva, colesterol LDL elevado, depressão, lesão cerebral traumática, inatividade física, diabetes, tabagismo, hipertensão, obesidade, consumo excessivo de álcool e, em idades avançadas, isolamento social, poluição do ar e perda de visão.
Para encerrar a sessão, Flávia Machado convidou o público a juntar-se ao MOVEDEM – Movimento Conjunto pela Demência, um programa de exercício físico destinado a pessoas com demência e cuidadores. Com duas sessões semanais, a iniciativa tem início previsto para novembro, na Universidade de Aveiro, no Pavilhão Dr. Aristides Hall Caixa UA.
Para mais informações, os interessados podem contactar a investigadora, uma das responsáveis pelo programa, através do número 964 050 967 ou do endereço de e-mail flavia.machado@ua.pt.

























