O Clube de Albergaria foi anfitrião do encontro protagonizado pela Associação de Patinagem de Aveiro, que reuniu cerca de duas dezenas de encarregados de educação para refletir sobre a influência dos pais na experiência desportiva dos filhos. Autonomia, autoestima, limites e equilíbrio foram alguns dos temas abordados.
Um comentário desmotivador feito sem intenção, o envolvimento excessivo dos pais ou a ausência de limites no comportamento fora do campo podem afetar a forma como uma criança encara a prática desportiva e o próprio desempenho na atividade.
Na quarta-feira, 7 de outubro, na sede do Clube de Albergaria, quase duas dezenas de encarregados de educação juntaram-se para colher alguns conselhos sobre como lidar com estas e outras problemáticas. O workshop ‘O papel dos Pais na Formação Desportiva – Preparação Mental e Bem-Estar’, dinamizado pela APA – Associação de Patinagem de Aveiro, começou por lembrar a audiência da importância de olhar para o desporto de forma holística.
José Silva, palestrante da tarde, licenciado em Desporto com especialização em Psicologia do Desporto, fez notar, antes de avançar, o paradoxo que tipicamente se verifica nestes encontros: os pais que mais beneficiariam das aprendizagens partilhadas tendem a não estar presentes; e os que estão, à partida, enviam já um sinal de preocupação para com a temática.
Para ilustrar a importância do bem-estar mental na performance dos atletas, José Silva começou por explicar que o desempenho em campo ou em palco depende de quatro áreas essenciais: Física, Mental, Estratégia/Táctica e Técnica. O orador indicou que todas elas devem ser avaliadas como uma só peça, considerando que qualquer mudança ou atitude pode influenciar cada uma delas e a sua globalidade.
Sem “moralismos, receitas ou fórmulas”, José Silva chamou a atenção para alguns fatores que podem impactar os quatro elementos interdependentes: rotinas de sono, beber água suficiente, alimentação adequada, um comentário negativo por parte dos pais ou um ralhete desproporcional do treinador, foram enumerados como exemplos.
Antes e agora
José Silva, após a introdução de conceitos, desafiou a audiência a falar na primeira pessoa. Separados em grupos, os encarregados de educação ficaram com a tarefa de descrever a evolução comportamental dos pais em relação à prática desportiva dos filhos. Foi consensual que a presença é hoje bastante mais ativa, uma realidade possibilitada por horários de trabalho mais permissivos do que aqueles que o trabalho agrícola, fabril ou piscatório permitiam.
Esta mudança aparentemente positiva não vem sem o seu lado lunar. Uma presença constante nos treinos, o acompanhar de todos os jogos, intromissões com treinadores, interjeições com outros pais e expectativas irrealistas para o desempenho dos filhos podem criar uma pressão insustentável sobre a criança ou o jovem atleta.
José Silva explica como esta parentalidade helicóptero pode afetar a autoestima dos filhos. “Se nós como pais, o exemplo máximo que os filhos têm, não confiamos neles, como é que eles vão confiar neles próprios? Lembrem-se sempre que menos autonomia resulta em mais baixa autoestima”, alertou. O orador reforçou ainda que a comparação é também inimiga da confiança, sendo de evitar comparações com os pares dos filhos.
Esta presença constante pode igualmente ter consequências para quem a pratica, referiu José Silva. Os pais que o fazem tendem a viver através dos filhos o que não conseguiram concretizar, indicou uma das mães presentes. José Silva acompanhou a conclusão e acrescentou que os pais que usam os filhos como extensões de si próprios tendem a não desenvolver uma vida própria, podendo deparar-se com um vazio inesperado caso, por exemplo, a criança ou adolescente queira experimentar outro desporto ou atividade.
Digital e pandemia
Os pais foram ainda unânimes em apontar a crescente falta de limites estabelecida pelos encarregados de educação em relação aos filhos – por exemplo, deixam passar mais asneiras sem chamar a atenção e permitem longas horas de ecrãs. José Silva validou a intervenção e acrescentou que apostar numa rigidez equilibrada é também saber gerir a criança como sonhadora, que quer tudo a todo o tempo e tem inúmeras profissões de sonho.
O palestrante acrescentou que os pais podem igualmente usar o desporto como forma saudável de estabelecer regras, horários e compromissos. José Silva deu como exemplo uma criança que pede para sair de uma atividade desportiva porque se cansa muito e a reação imediata dos pais é aceder ao pedido. Para além de o cansaço no desporto ser natural, as crianças não têm a capacidade de tomada de decisões completamente desenvolvida, pelo que estas deliberações devem ser mediadas pelos pais.
Sobre o excesso das horas passadas em ecrãs, José Silva pediu especial atenção para a forma como o tempo passado a consumir horas de conteúdo que puxa pela dopamina torna as crianças e adolescentes menos motivadas e disponíveis para o desafio da prática desportiva, porque no scroll infinito tudo é fácil e imediato. Para além disso, rouba-lhes a oportunidade de ficarem aborrecidas, uma arte perdida. “Estamos a tirar o tédio às crianças, que é essencial para a criatividade”, defendeu José Silva.
No final, Catarina Malveira, em representação da Patinagem Artística do CA, agradeceu a presença de todos e a disponibilidade do orador. “Queremos continuar a promover iniciativas que tornem os nossos pais mais instruídos para que os nossos atletas possam ser também mais instruídos”, desejou a anfitriã.















