Nutrição, saúde oral, fisioterapia, preparação para o pós-parto, criação de vínculos com o bebé, leitura e criopreservação de células estaminais foram alguns dos temas abordados na conferência promovida pelo Rotary Club de Albergaria-a-Velha.
A conferência do Rotary Club de Albergaria-a-Velha dedicada ao Dia da Grávida, que teve lugar na quinta-feira, na Biblioteca Municipal, reuniu diferentes profissionais para abordar várias dimensões da gravidez, desde a saúde oral aos hábitos de leitura, passando pela fisioterapia e pela importância de criar vínculos com o bebé mesmo antes do nascimento.
A alimentação na gravidez abriu a sessão, com Cecília Soares, nutricionista, a chamar a atenção para a importância de comer de tudo um pouco, considerando os nutrientes e benefícios de cada grupo alimentar — por exemplo, a proteína e o ómega 3 do peixe; e o cálcio, o iodo, a proteína e a vitamina B12 presentes no queijo, iogurte e leite.
Neste sentido, sugeriu que as futuras mães criassem uma forma de esquematizar as refeições, para que tivessem uma gravidez mais saudável e para que o bebé pudesse receber tudo o que necessitava para o seu desenvolvimento. “Aquilo que no dia a dia devemos fazer em termos alimentares, aqui tem mesmo de ser seguido”, reforçou.
A nutricionista alertou, no entanto, que comer com cuidado não significava passar fome e que essa carência e pressão podiam igualmente ser transmitidas ao feto. O normal, indicou Cecília Soares, era o aumento progressivo de calorias na dieta durante a gravidez — um acréscimo de 340 calorias no segundo trimestre e de 450 no terceiro. Como dicas suplementares, referiu que o peixe escolhido deveria ser aquele que continha menos mercúrio e que a cafeína deveria ser limitada a 200 mg por dia.
Mitos e sorrisos
Também os cuidados de saúde oral assumiram um papel importante na sessão, durante a intervenção intitulada “Sorrir a Dois”, apresentada por Cláudia Jorge, higienista oral. A especialista alertou para estudos que apontavam para ligações entre doenças das gengivas da grávida e o aumento da probabilidade de um nascimento prematuro e com baixo peso.
Por esses e por outros motivos, a salvaguarda de uma boa higiene oral era crucial para a saúde da mãe e do futuro bebé, um desafio acrescido durante a gravidez, período em que as variações hormonais podiam provocar maior sensibilidade dentária, que tenderia a evoluir para gengivite gravídica. Para além disso, era produzida menos saliva e com pH inferior, o que dificultava a limpeza natural da boca; os enjoos e o cansaço podiam ainda desmotivar o cumprimento de uma rotina de higiene oral mais rigorosa.
Cláudia Jorge recomendou, portanto, um esforço redobrado para cumprir uma rotina de higiene oral adequada, indicando que a lavagem dos dentes deveria ser feita três vezes ao dia — seguindo uma sequência ao escovar, para não deixar nenhum dente para trás; utilizando movimentos circulares; lavando o interior, o exterior e a superfície de mastigação; limpando a língua e os espaços entre os dentes.
A interveniente indicou ainda que uma concentração de 1000 ppm (partes por milhão) de flúor era o limiar mínimo recomendado para que uma pasta de dentes fosse eficaz e explicou que, no final da escovagem, deveria cuspir-se o que ficava na boca, mas não enxaguar de imediato. O ideal, indicou, seria aguardar cerca de 10 minutos para que o flúor presente na pasta fizesse efeito. Em relação ao bebé, recomendou moderação no uso da chupeta e atenção ao hábito de “xuxar no dedo”, que poderia alterar a forma do céu da boca e constituir uma fonte de bactérias para o organismo.
Cláudia Jorge aproveitou ainda a ocasião para quebrar alguns mitos associados aos dentes e à sua relação com a gravidez, sobretudo os ligados ao receio de ir ao dentista “porque faz mal” fazer radiografias ou receber anestesia. A especialista reforçou que “os médicos sabem o que estão a fazer” e que era recomendável ir ao dentista logo que se soubesse da gravidez e, em particular, durante o segundo trimestre.
Cuidar para poder cuidar
A preparação para os primeiros tempos de vida do bebé foi outro dos eixos da iniciativa. Ana Luísa, fisioterapeuta pediátrica, abordou os primeiros cuidados ao bebé, procurando transmitir aos futuros pais conhecimentos que lhes permitissem um início de pós-parto o mais confortável possível para a mãe e o bebé.
Ana Luísa aconselhou a recorrer à fisioterapia com os bebés sempre que existisse necessidade ou, de forma preventiva, quando completassem entre 10 e 15 dias. Os principais sinais de que uma ida ao fisioterapeuta poderia justificar-se surgiam durante a amamentação. Uma postura assimétrica, preferência marcada por um lado, dor na mãe e pega instável por parte do bebé eram alguns dos comportamentos a ter em atenção.
Outros indicadores de tensão corporal nos bebés eram, por exemplo, a cabeça inclinada quase sempre para o mesmo lado, o corpo muito arqueado ou a dificuldade em rodar para um dos lados.
Já Patrícia Cruz, enfermeira especialista em Enfermagem de Reabilitação, dedicou a sua intervenção à reeducação do pavimento pélvico, destacando a importância do bem-estar e do autocuidado da mãe após o período pós-parto. O pavimento pélvico era um conjunto de músculos em forma de rede localizado na parte inferior da bacia, que desempenhava funções vitais no corpo feminino.
Esta “rede” era responsável por sustentar órgãos fundamentais como a bexiga, o útero e o reto, além de ajudar a controlar a saída de urina, fezes e gases e intervir diretamente na função sexual. Durante a gravidez e no pós-parto, a recuperação desta estrutura era essencial e podia ser iniciada de forma simples através da respiração consciente, como recomendou Patrícia Cruz.
A enfermeira recomendou um exercício respiratório básico e integrado três vezes ao dia ou sempre que possível. O retomar da atividade física foi indicado para o período pós-parto, cerca de três semanas após o nascimento do bebé. Como conselho final, Patrícia Cruz pediu às mães que não adiassem a procura de ajuda perante sintomas que pudessem ser toleráveis, mas que causassem desconforto.
Letras e vínculos
A “parte das emoções” da parentalidade foi abordada por Mariana Parente, psicóloga da CPCJ, que falou sobre afeto e vínculo com o bebé, uma ligação importante de preservar no meio da azáfama de novas tarefas e por entre o mar de informação por onde as mães navegavam antes, durante e após a gravidez.
Numa apresentação interativa, que convidou as futuras mães a colocar as mãos sobre a barriga e a comunicar com o bebé, Mariana Parente recomendou, sempre que possível, como exercício de relaxamento e momento de acalmia: escutar, falar, tocar, imaginar e reparar.
Estas formas de criação de vínculo não eram mecanismos mágicos para que as mães sentissem uma ligação intensa e imediata ao bebé — isso nem sempre acontecia, não acontecia a todo o tempo e não era sinal de que algo de errado se passasse, explicou a psicóloga. O importante, acrescentou, era criar este vínculo com intenção e de forma presente. Sem pressas.
Mariana Parente lembrou que todas as experiências eram próprias de cada mãe e reforçou que “ter medo não é igual a falta de amor pelo bebé, cansaço não é falta de vínculo e ambivalência de emoções não é rejeição”. Em vez de procurar o momento perfeito, a psicóloga convidou a olhar para as “centenas, milhares de pequenos momentos” que criavam este vínculo entre mãe e bebé.
Outra forma de criar esta ligação, antes e depois do nascimento, em família ou entre mãe e bebé, era a leitura. Marisa Almeida, técnica superior da Biblioteca Municipal de Albergaria-a-Velha, apresentou os benefícios de pegar num livro mesmo antes de o bebé poder fazê-lo.
A técnica municipal lembrou que, à 20.ª semana de gravidez, os bebés já conseguiam ouvir os sons e que, à 22.ª, eram capazes de distinguir vozes. Este exercício, recomendou Marisa Almeida, deveria ser feito a três, entre o casal e o bebé por nascer, como forma de criar vínculos afetivos e gerar um ambiente de segurança emocional.
Este era ainda um momento de estímulo mental e relaxamento para a mãe, ambos cruciais para uma gravidez saudável. Marisa Almeida citou ainda estudos que apontavam para um estímulo do desenvolvimento auditivo e da linguagem no bebé quando este ainda se encontrava no útero da mãe.
Marisa Almeida deixou ainda algumas dicas sobre os livros mais apropriados para cada idade, sendo este um hábito a manter após o nascimento. Dos zero aos 18 meses, os pequenos leitores gostavam de pôr a mão na massa e sentir os livros, pelo que os livros de banho, de tecido ou de plástico eram os mais indicados — melhor ainda se despertassem a atenção para texturas, cores e sensações. Nestes primeiros meses eram também prediletas as imitações de vozes de diferentes personagens, as rimas e os poemas.
Dos 18 meses aos três anos, era importante deixar a criança escolher o livro e estar disponível para ler quando o pedido fosse feito. Falar sobre as imagens da obra, como forma de estimular a imaginação e a conversa sobre outros temas, foi igualmente recomendado por Marisa Almeida.
Medicina como aliada por excelência
A sessão abordou ainda a possibilidade de criopreservação de células estaminais, com Diana Santos, delegada da Bebé Vida, a explicar que, apesar de promissor e das constantes e recentes evoluções, o procedimento não deveria ser visto como uma cura milagrosa para todas as doenças existentes.
O procedimento, de forma resumida, consistia na recolha do sangue e do tecido do cordão umbilical logo após o parto, num processo quase sempre simples, indolor e seguro tanto para a mãe como para o bebé — nos casos em que se verificasse a impossibilidade de recolha, a segurança da mãe e do bebé seria sempre a prioridade, como reforçou Diana Santos.
Estas células eram colhidas e congeladas a temperaturas negativas extremas em laboratórios especializados, com o objetivo de serem conservadas durante décadas para utilização futura em tratamentos médicos. A especialista alertou que a maior esperança que os pais poderiam ter para esta utilização futura seria o benefício do filho e não de outros familiares. A probabilidade de compatibilidade para tratamento de familiares rondaria apenas os 25% a 39%.
A delegada informou que todos os hospitais do país, públicos ou privados, faziam este procedimento, sendo a recolha realizada por quem acompanhava o parto. Diana Santos desconstruiu ainda a ideia de que um nascimento prematuro impediria o procedimento — desde que o kit estivesse previamente assegurado e a recolha não representasse perigo, esta seria feita. Seria igualmente falso que o corte do cordão umbilical pelo pai impedisse a recolha.
No entanto, Diana Santos esclareceu que, para avançar com o processo, as células teriam de garantir qualidade para tratamento futuro, algo que só seria possível determinar após a recolha. A especialista referiu ainda que o período de preservação por 25 anos, indicado pelas entidades que realizavam este serviço, não significava que as células ficassem inutilizadas após esse período.
Diana Santos acrescentou que o período temporal seria em breve estendido para 30 anos em Portugal e que a utilidade terapêutica das células poderia chegar aos 50 anos. A propósito da possibilidade de a quantidade de células recolhida ser insuficiente para certos tratamentos, a oradora lembrou que, desde 2021, passara a ser possível a expansão de células estaminais. O limite para a reprodução aconteceria quando as células começassem a criar mutações de si próprias.
Também no campo dos cuidados médicos, a perspetiva dos cuidados de saúde antes, durante e depois do nascimento foi abordada por Sofia Pereira, enfermeira especialista em Saúde Materna e Obstétrica da ULSRA, numa intervenção dedicada aos serviços disponíveis na UCC de Albergaria-a-Velha para acompanhamento da mulher e da família ao longo de todo este processo.
As sessões do curso de Preparação para o Parto e Parentalidade, direcionado para grávidas e casais, geralmente a partir das 28 semanas de gestação, decorriam às segundas-feiras, das 10h30 às 12h30. As aulas incluíam temas como o desenvolvimento intrauterino, o trabalho de parto, técnicas de relaxamento, gestão da dor e analgesia epidural.
A UCC contava ainda com a possibilidade de criar um plano de parto, permitindo conhecer opções, alinhar ideias e colocar questões, bem como entender os sinais de que o grande dia estava próximo.
Após o nascimento do bebé, a Unidade dispunha do programa Recuperação Pós-Parto, centrado na reabilitação física e emocional da mulher, com exercícios que podiam ser partilhados em família; e ainda do Apoio à Amamentação, serviço focado em dar resposta a dificuldades na pega, no posicionamento ou a dores associadas ao aleitamento materno.
No final da conferência, houve entrega de lembranças a todas as participantes e um sorteio com surpresas destinadas às futuras mamãs.




































