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Sessão solene de Abril ouve jovens da terra sobre dúvidas e esperanças

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Os partidos da Assembleia Municipal – CDS-PP, coligação PSD/IL, Chega e PS – estiveram representados na sessão extraordinária do 25 de Abril pelos mais novos das concelhias. Os jovens manifestaram-se sobre a importância da data, o papel da cidadania na defesa dos valores de Abril, a nova (des)ordem mundial e deixaram conselhos para um futuro melhor.

A sessão extraordinária da Assembleia Municipal comemorativa do 25 de Abril começou com um minuto de silêncio “pelos povos que sofrem os horrores da guerra em qualquer lugar da Terra”, seguido de uma salva de palmas “por Abril, pela democracia, pelo poder local e pela Liberdade”, nas palavras de Cristiana Pinto, apresentadora da cerimónia e trabalhadora no Cineteatro Alba, onde decorreu o encontro.

António Loureiro, presidente da Assembleia Municipal, a liderar as celebrações pela primeira vez, escreveu, num discurso lido por Cristiana Pinto, sobre a importância de festejar Abril em conjunto, louvando a iniciativa de continuar a destacar o tecido associativo e social de uma freguesia a cada ano.

“Este ano, Albergaria-a-Velha celebra o 25 de Abril com Alquerubim: terra da nossa terra, gente da nossa gente. Estas comemorações devem ser vividas com alegria e em comunhão com todos os democratas genuínos, como dever de lembrar e homenagear todos os que resistiram, sofreram e lutaram contra o regime ditatorial do Estado Novo”, afirmou o discurso.

O presidente do órgão de poder local alertou para a importância de não “defraudar Abril” e chamou a atenção, em particular dos mais jovens, para “pretendentes a tiranos, cuja intenção final é calar-lhes a voz, subjugá-los e tirar-lhes Abril”.

Antes da intervenção de um representante de cada grupo municipal – CDS-PP, coligação PSD/IL, Chega e PS – Márcio Joel, Ema Pereira e Marta Torres cantaram e tocaram Zeca Afonso: primeiro “Grândola” e depois “Vampiros”, esta última apenas instrumental, ao som da harpa e do trompete.

Viva o poder local

António Loureiro lembrou que, para além dos 52 anos da efeméride, se celebra meio século da Constituição da República Portuguesa, “pilar fundamental da democracia”, e das primeiras eleições autárquicas livres, que representam “50 anos de poder local num país soberano”.

“O 25 de Abril deu-nos a Liberdade, a Constituição deu-nos as regras e o poder local deu-nos a participação. Cabe-nos, hoje, preservar esses direitos, cumprindo e respeitando, diariamente, o nosso dever de participação cívica”, afirmou o presidente da Assembleia, lembrando que a ação na sociedade transcende o voto.

Aos cidadãos, pediu que se mantivessem “informados, cientes dos seus direitos e deveres, participativos e comprometidos”, para que possam responder aos “processos de participação claros, inclusivos e acessíveis”, um desafio para os governantes.

Para António Loureiro, o caminho para um “Estado forte, informado, evoluído, empático e em paz” passa por aqui e pela criação de um “espaço de diálogo, com escuta ativa, capaz de aproximar posições, reduzir extremismos e construir pontes”.

Portugal cinzento

Catarina Meireles, em representação do Partido Socialista, começou por louvar todos os que tornaram possível o 25 de Abril, graças aos quais apenas conhece o antes por “relatos sombrios” de um tempo em que as mulheres eram “reduzidas a meras serventes, na sombra de um homem que ditava o que podiam ou não fazer e onde podiam ou não ir”.

Nesse Portugal, “que alguns querem recuperar com cravos verdes”, afirmou, em referência ao símbolo escolhido por André Ventura para levar à Assembleia da República, dizendo representar a comunidade emigrante portuguesa, Catarina Meireles lembrou que se vivia num “país pobre, atrasado”, com elevada taxa de analfabetismo e emigração.

Os cravos colocados nas espingardas na capital levaram a Albergaria a luz de saída de “um Portugal descalço, com um quarto da população analfabeta, onde as crianças eram forçadas a abandonar os estudos para poderem trabalhar”, detalhou. “A esperança que Abril nos deu — a todos, todos, todos — está em cada dia que vivemos”. Ao poder local autárquico deixou o repto para que seja “voz do povo, que garanta esperança neste mundo em mudança, vigilante da ordem democrática”.

A representante do PS serviu-se das palavras de Saramago — “somos a memória que temos e a responsabilidade que assumimos; sem memória não existimos e sem responsabilidade talvez não mereçamos existir” — para lembrar que nada dura se não for cuidado, e das de Ary dos Santos para garantir, por outro lado, que “agora ninguém mais cerra as portas que Abril abriu”.

Falar de novembro

Pedro Correia, do Chega, descreveu o 25 de Abril como “o fim de um regime que ameaçava direitos, restringia opiniões e não permitia aos portugueses escolher o seu destino”, um “momento fundador da democracia que abriu caminho à liberdade de expressão, ao pluralismo político e à alternância democrática”.

O eleito defendeu que a data não deve ser “uma narrativa única, fechada e ideológica”, pois “pertence a todos os portugueses — não pertence aos partidos ou às elites, mas ao povo”. Pedro Correia considerou que Abril deve ser mais do que “liberdade formal” e materializar-se em “liberdade para trabalhar, empreender, viver em segurança e dizer o que se pensa sem medo de censura política ou social”.

Para o membro da Assembleia, “muitos portugueses” sentem que Abril está incompleto. “Há portugueses que trabalham toda uma vida e não conseguem pagar uma casa; há jovens que não conseguem construir um futuro no seu próprio país; há famílias que vivem num ambiente de insegurança nas ruas; há cidadãos que sentem que o Estado lhes pede cada vez mais e dá cada vez menos”, exemplificou.

“Burocracia excessiva, centralismo, perda de soberania e decisões afastadas da vontade popular” foram enumerados como aspetos nos quais os governantes se deveriam focar para preservar Abril. Pedro Correia afirmou ainda que “a verdadeira liberdade” foi apenas consolidada com o 25 de Novembro de 1975, que trouxe “democracia representativa e pluralismo partidário”, nas suas palavras.

Participar para preservar

José Pedro, em representação da coligação PSD/IL “Albergaria em Primeiro”, afirmou que “celebrar Abril é um imperativo de consciência, é reconhecer que antes de Abril houve trevas e escuridão”. Sem dúvidas de que “Abril se cumpriu”, o eleito acrescentou que continuar “depende de nós”.

Participar na vida em sociedade e escrutinar o poder são duas formas de preservar o legado de Abril que deixa como conselhos. “Se queremos um mundo novo, e até admirável, temos de o construir”, incentivou, admitindo que os desafios são grandes – como a saúde que falha, a justiça inacessível, a educação que definha a cada ano, a cultura e o setor social que correm o risco de ficar esquecidos ou de ser trocados por armas de guerra, e uma Europa desatualizada.

José Pedro defendeu que o povo deve estar alerta para a imprevisibilidade dos tempos em mudança constante. “Portugal, e todo o mundo, está aberto a toda a espécie de extremismos – de direita ou de esquerda. Temos de estar atentos aos salvadores, aos ditos impolutos e aos políticos para os quais as decisões têm apenas em vista o retorno eleitoral”, avisou.

O eleito pela coligação apelou aos cidadãos para que sejam “ativos, atentos e resilientes” como forma de combate aos perigos que identificou e em defesa de uma participação para além do ato eleitoral.

Liberdade materializada

Pedro Rebelo, do CDS-PP, partido do executivo, falou das celebrações como um “abrir de janelas da história”, num dia “em que Portugal acordou livre, uma data que não passa, que acredita em nós”. O membro da Assembleia afirmou que a liberdade, “palavra simples, mas imensa”, foi “conquistada por um povo que se recusou a viver ajoelhado à opressão e escolheu caminhar de cabeça erguida”.

O eleito apelou à união para preservar os valores de Abril e para os continuar a aprofundar. “Se a liberdade é respirar sem pedir licença ao medo, viver em democracia é garantir que esse ar chega a todos”, resumiu.

Pedro Rebelo enumerou, em tom de esperança, formas quotidianas que materializam Abril: “o rosto dos trabalhadores e o direito que têm de se organizar; as mulheres que conquistaram espaço; os autarcas eleitos democraticamente; as coletividades que passaram a ser escolas de cidadania; e as freguesias que passaram a decidir o seu próprio destino”.

Num momento em que “a força bruta rouba palco às palavras”, Pedro Rebelo lembrou que “a herança de Abril não é garantida” e que não existem “soluções simples para problemas complexos”, promessas que merecem cuidado. Para o futuro, convidou “a escolher, todos os dias, a ética, o diálogo e a tolerância”, bem como “ouvir mais e incluir melhor”.

Abril todos os dias

Carlos Coelho, presidente da Câmara Municipal, olhou para a efeméride como uma necessidade diária, que transcende a formalidade dos direitos e necessita de aplicação concreta. “A saúde de uma democracia mede-se, sobretudo, pela forma como as instituições do Estado se organizam para responder às necessidades das pessoas, pela consistência dos serviços prestados, pela confiança que são capazes de gerar e pelo futuro que conseguem projetar para as novas gerações”, afirmou.

Pelo que, quando estas bases falham, é preciso ouvir. “Não é normal que o acesso ao essencial dependa demasiado da sorte”, sintetizou Carlos Coelho. Saúde, educação, proteção social, segurança, habitação e mobilidade têm de ser garantias do que torna concretos os princípios de Abril, afirmou o presidente da Câmara.

Carlos Coelho louvou aqueles que, diariamente, cuidam destas materializações, visíveis “no modo como uma rua é tratada, como um apoio chega a tempo, como um serviço atende com respeito, como uma escola forma, como um centro de saúde responde, como uma junta de freguesia acompanha e como uma autarquia planeia e resolve” – um trabalho invisível que “nem sempre ocupa o centro da fotografia”.

Neste sentido, o edil afirmou que os autarcas são verdadeiros “guardiões do espaço público e de uma parte muito concreta da vida democrática”. “Somos proximidade, presença e resposta. Somos, muitas vezes, a primeira porta que se abre, a primeira chamada que se faz”, acrescentou.

E porque os municípios são mais do que estruturas estatais, Carlos Coelho deixou ainda uma palavra de apreço pela “energia coletiva” das associações e IPSS, espaços onde “a comunidade se organiza, participa, coopera e aprende a assumir responsabilidades em conjunto”.

Voz dos jovens

Mário Branco, comissário das celebrações e presidente da Assembleia Municipal de 2013 a 2025, que deixou o marco de reavivar as comemorações, foi responsável por coordenar a palestra/debate ’25 de Abril e a Democracia: da Esperança às Dúvidas’.

A mesa de intervenientes foi composta de representantes jovens indicados pelas respetivas estruturas partidárias locais: João Gamelas do PS, Pedro Correia do Chega, Alexandre Nina do PSD/IL e Diana Tavares do CDS-PP.

Questionados sobre a importância do 25 de Abril como geração que não viveu em ditadura, os intervenientes foram unânimes em reconhecer a importância da data. Foi “esperança e evolução” para Diana Tavares; “o pináculo da história mais bonita do mundo” para Alexandre Nina e “chave na democracia portuguesa” apesar de ter “desígnios a cumprir” para Pedro Correia. “Os meus sapatos já não são os do meu irmão mais velho, não tive de ir para a guerra, não tive de dividir comida para sobreviver e pude ir estudar e pensar livremente”, expandiu João Gamelas.

De seguida, Mário Branco questionou como responderiam os jovens à estatística da Rádio Renascença que aponta para uma percentagem de 87% a 90% de portugueses a indicar que a democracia é preferível a qualquer outro regime, mas que espelha uma maioria insatisfeita com o modo como a democracia funciona no nosso país.

Alexandre Nina, do PSD/IL, afirmou que “raramente existe uma crítica à democracia que seja realmente à democracia, tendem a ser situações específicas ou direcionadas a indivíduos específicos”, uma ideia acompanhada pelo jovem do PS, que indicou que a democracia “é um sistema que falha” como todos os outros e que vale e se distingue pela sua representatividade.

No entanto, João Gamelas apelou aos políticos que sejam sérios quando “fazem política e quando falam de democracia”, referindo-se especificamente à forma como, por vezes, os partidos comunicam através das redes sociais, em que as intervenções são condensadas “em vídeos de sete segundos” sem tempo para reflexão ou incentivo ao sentido crítico.

Neste sentido, Diana Tavares concordou que é preciso “esperar e ter paciência”, não querer tudo para ontem e confiar no regular funcionamento das instituições. Pedro Correia afirmou que, querendo deixar claro que a democracia é preferível a qualquer outro sistema, não está satisfeito com o nível de transparência das instituições e afirma existir incerteza sobre o seu funcionamento.

Roda da cidadania

Mário Branco questionou ainda os jovens sobre o que cada um deles faria para que, num cenário em que a democracia é uma bicicleta de duas rodas – uma dos políticos e outra da cidadania – o que fariam para que esta última permanecesse bem oleada. Pedro Correia apontou para a capacitação das pessoas para investir na educação e aproximá-las da política, sobretudo através da linguagem mais acessível.

Alexandre Nina indicou ser essencial combater a polarização, com um apelo a que todos usassem “o poder de pensarmos por nós próprios”, afirmando a liberdade para pensar do 25 de Abril como transcendente a partidos e figuras políticas.

João Gamelas optou por transformar a bicicleta num monociclo, considerando os políticos parte da sociedade civil. A representante do CDS afirmou que, para fazer esta roda girar de forma ágil, a juventude tem de ser informada e envolvida e, sobretudo, ouvida; destacando as redes sociais como instrumento de interação entre eleitos e eleitores mais jovens.

Guerra e futuro

Os intervenientes foram ainda questionados sobre a nova (des)ordem mundial, a propósito da posição que Portugal deve tomar no que toca à defesa nacional. CDS, Chega e PSD/IL afirmaram ser necessária “coerência e sentido de responsabilidade”, bem como cooperação entre Estados, sobretudo entre Portugal, NATO e União Europeia; “uma consequência do mundo globalizado em que vivemos”.

João Gamelas, apesar de não discordar diretamente, afirmou que “em matéria de política internacional deve seguir-se o direito internacional e, se há dúvidas de quando ele está a ser respeitado, é preciso ter espinha dorsal e humanismo para tomar decisões”, mesmo que isso signifique questionar aliados. “A guerra é a falência de uma civilização. É o pior resultado possível”, concluiu o moderador Mário Branco.

A propósito do futuro, foi pedido que deixassem uma mensagem aos dirigentes, para a construção de melhores tempos vindouros. João Gamelas apelou a um olhar sério sobre os algoritmos, num momento em que as redes sociais se inundam de conteúdo misógino e “temos crianças a ter uma infância condenada a vídeos repetitivos, perdidas nos telemóveis”, concluindo ser necessário “legislar o digital”.

Alexandre Nina afirmou que “a juventude pode e deve ter uma voz” e defendeu que “não há causas demasiado pequenas”, apelando a que sejam feitos esforços coletivos “para fazer o que ainda não foi feito”, quebrando com moldes antigos que, até então, não têm servido nem a juventude, nem o país.

Pedro Correia argumentou ser necessário resolver “a falta de confiança no sistema e instituições” e propõe sonhar mais alto, comparando o país aos que estão melhores “sem palas ou barreiras ideológicas”. Diana Tavares afirmou ser necessário continuar a apostar na juventude, com medidas como o IRS Jovem, impostos mais baixos e garantia pública de crédito à habitação, para enumerar alguns dos caminhos já tomados, que atribuiu à auscultação dos jovens. “É assim que fica a democracia quando os jovens são ouvidos”, defendeu.

Mário Branco, no final da sessão, concluiu ser “muito mais aquilo que nos une do que aquilo que nos separa”.

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Beatriz Ribeiro
Beatriz Ribeiro
Formada em Jornalismo pela FCSH. Com gosto pela escrita e pesquisa de informação, vim de Almada para Albergaria para estar mais próxima das pessoas – a peça central do jornalismo. Amante de música e podcasts, agora aprendo a caminhar sem fones, em busca das vozes dos locais.
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