Após dias de silêncio, a Direção acusou a carta aberta assinada por dezenas de elementos dos Bombeiros de Sever do Vouga de provocar “desestabilização” e “circulação de informações que distorcem a realidade”. Perante a retirada de confiança, o comandante em regime de substituição, Telmo Asensio, indica que “não muda nada” e afirma que não irão “baixar os braços”.
Numa carta dirigida à população, a Direção dos Bombeiros de Sever do Vouga quebrou o silêncio dos últimos dias perante a comunicação de 71 elementos da corporação, onde foram expostas fortes críticas à atual direção, desde falta de condições de conforto do Quartel à necessidade de reparação e atualização da frota de veículos; passando ainda por críticas à falta de agradecimento pelo trabalho desenvolvido pelos soldados da paz e acusações de recusa de fontes de financiamento diversificadas por parte da Direção.
Em resposta, após dias sem prestar declarações a meios de comunicação regionais ou nacionais, a Direção reagiu ao que chamou de “tentativas de desestabilização” e “circulação de informações que distorcem a realidade”.
A Direção afirma que “tem lugares e timings próprios para tratar e gerir os seus problemas” e considera “incompreensível o alarido que veio a público”, tendo, por isso, decidido “retirar a confiança” ao atual comandante em regime de substituição, Telmo Asensio. “Aos Operacionais, pedimos que se mantenham calmos e serenos e que cumpram com aquilo que melhor sabem fazer – O Socorro à População e Compromisso”, lê-se na carta da Direção.
Telmo Asensio afirma que “não muda nada”, lembrando que, sozinha, a Direção não tem poderes para destituir um comandante. “Já tínhamos perdido a confiança neles há muito tempo”, acrescentou, assegurando que não irão “baixar os braços” perante a resposta da Direção.
Segundo o Decreto-Lei n.º 241/2007, de 21 de Junho, a decisão de não renovação da comissão de serviço de um comandante requer “recurso para a comissão arbitral”, como indica o artigo 32.º.
O artigo seguinte refere que esta comissão é composta “pelo presidente da assembleia geral da associação humanitária de bombeiros, que preside, por um representante designado pela Autoridade Nacional de Proteção Civil e por um elemento indicado pela Liga de Bombeiros Portugueses”. Pelo que, apesar de não ser uma decisão unilateral da Direção dos Bombeiros o colocar fim a um período de Comando – sendo que, a Direção dá ou retira posse consoante nome indicado pela ANEPC – a retirada de confiança pode representar o início deste processo.
“As carências estão identificadas”
O documento em reposta à carta aberta começa por lembrar que a atual Direção assumiu funções há 10 meses, “num momento crítico, em que a ausência de outras listas candidatas colocava em risco a própria continuidade da instituição”, reforçando que têm feito “um esforço deliberado de manter a estabilidade”, sem remuneração e sempre “pela causa”.
Em relação às acusações de recusa de formas de financiamento diferentes – por exemplo de mecenas, empresas locais ou ainda vindas da organização de eventos que envolvam a comunidade, como refere a carta assinada pelos 71 bombeiros – a Direção afirma que “todos os procedimentos, eventos e demais atividades devem obedecer ao planeamento orçamental” e “algumas ações do passado recente, em vez de beneficiarem a instituição, resultaram em prejuízos e faturas inesperadas”.
Conforme a grande maioria das Associações Humanitárias de Bombeiros Voluntários, a corporação severense “luta com dificuldades de liquidez, que não são de agora, mas desde a criação da mesma”, como escrevem. No entanto, a Direção assegura que “as carências estão identificadas” e estão “a trabalhar em soluções, cujos resultados não se refletem no imediato”.
“Estamos focados em resolver as carências de frota e equipamentos que herdámos. Para tal, contamos com o apoio constante de parceiros estratégicos, para garantir o socorro à comunidade”, afirmam.
Atropelamento de funções?
A Direção nega que tenha existido falta de abertura perante o Comando e demonstra-se admirada com a atitude do comandante em regime de substituição, assegurando que “nas reuniões havidas entre as partes (desde o início de janeiro, pp), foi dada abertura para identificar problemas, por forma a serem estudadas as soluções”.
No entanto, a Direção reforça que a instituição “exige respeito pela hierarquia” – “ao Comando cabe a operacionalidade, na qual a Direção nunca se imiscuiu; à Direção cabe a gestão”. O Comando desmente esta versão e queixou-se, na carta aberta, de “interferência da Direção em questões operacionais, nomeadamente com ordens diretas a Bombeiros”.
Sem responder diretamente às acusações de priorização de contratação de civis ao invés de bombeiros e à falta de pessoal para assegurar o serviço pleno de transporte de doentes, a Direção reforça que “a gestão de recursos humanos (funcionários)” é da sua competência. E acrescenta: “Não cedemos a pressões para contratações baseadas em amizades ou para aumentos salariais desfasados da nossa realidade financeira”.
Sobre o que considera uma intimidação “por falsidades e (ou) ataques camuflados sob perfis falsos”, a Direção irá “apresentar as queixas em sede própria”. “Fomos eleitos pelos sócios para servir e é isso que faremos, com a cabeça erguida e o rigor que a nossa Associação merece”, terminam.
De lembrar que, em finais de dezembro, o Jornal de Albergaria recebeu um e-mail anónimo com denúncias a propósito de “um conjunto de situações graves e recorrentes relacionadas com a atual direção e funcionamento dos Bombeiros de Sever do Vouga”. Entre as acusações estava a permanência de doentes sem transporte, durante semanas, para consultas, tratamentos ou exames, por falta de funcionários; uma frota de viaturas sem renovação desde 2019, na qual, segundo a comunicação, “cerca de 90% dos veículos” apresenta “danos visíveis ou problemas mecânicos”.
O mesmo e-mail referia o “conflito e discordância permanente entre o Comando e a Direção, situação que se reflete diariamente na parte operacional, com impacto direto na organização de serviços, tomada de decisões e eficácia da resposta à população”. Dias depois, Miguel Matos, antigo comandante dos Bombeiros de Sever do Vouga, demitiu-se, a 31 de dezembro, através de nota enviada ao corpo ativo. Em declarações ao JA, afirmou afastar-se por “motivos pessoais”.
















