4º Congresso USPBV termina com olhar em frente

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Envelhecimento ativo, saúde na infância, alterações climáticas, importância da formação ao longo da vida e coordenação entre entidades de saúde e prestação de socorro foram os temas centrais do Congresso da Unidade de Saúde Pública Baixo Vouga (USPBV), que teve lugar no concelho nos dias 20, 21 e 22.

O 4º Congresso da Unidade de Saúde Pública (USP) Baixo Vouga reuniu cerca de duas centenas de profissionais ao longo dos três dias (20-22 maio) para conversas e workshops focados em temas que marcam a atualidade da área, sob o lema “Unidos por uma Visão 360º em Saúde Pública”, promotor de uma ideia integrada da Saúde e ação conjunta para a sua melhoria.

O evento, com lugar no Cineteatro Alba, foi organizado pela USP Baixo Vouga em parceria com o Município de Albergaria e contou com a participação de profissionais de saúde, investigadores, académicos e membros da comunidade em geral.

“Sem uma Saúde Pública a fazer e a planear políticas locais, regionais e nacionais vamos enfrentar muitas dificuldades. É importante que os decisores de topo – que não somos nós – tenham presente que estamos no campo da Saúde e não da Doença Pública e criem políticas que apostem na prevenção e, a longo prazo, se poupe uma pipa de massa”, dizia, na sessão de encerramento, em jeito de síntese, Alcino Santos, diretor clínico para os Cuidados de Saúde Primários da Unidade Local de Saúde (ULS) da Região de Aveiro.

A coordenadora da USP Baixo Vouga da ULS Região de Aveiro, Ana Oliveira, assinou por baixo as palavras do colega e parabenizou todos pelo Congresso, incluindo a própria organização, reservando uma palavra especial de agradecimento ao Município de Albergaria-a-Velha pelo acolhimento. “Acho que, mais uma vez, correu tudo muito bem. Sou muito vaidosa da Unidade que coordeno e da minha equipa. Sei que trabalhamos muito bem”, agradecia.

Saúde preventiva

Após um vídeo promocional do concelho de Albergaria, focado nas relíquias naturais, tradições e património molinológico locais; António Loureiro, presidente da Câmara Municipal, afirmou ter sido “uma grande honra” receber o Congresso e garantiu que a autarquia está “sempre de portas abertas para este tipo de eventos”.

O edil afirmou reconhecer o papel e conhecer as dificuldades dos agentes de Saúde Pública no terreno e deu como exemplo de coordenação essencial entre entidades municipais e promotores de Saúde Pública a vida desportiva no concelho, que implica a criação e manutenção de condições de piscinas municipais para mais de dois mil utilizadores e infraestruturas para os 1500 atletas federados.

Este foi igualmente um trunfo referido pelo presidente como bom exemplo de aposta na saúde preventiva, através da promoção de um estilo de vida saudável. “Sabemos o quanto vos devemos. Queremos sempre melhorar a qualidade de vida da nossa população e estamos cientes de que isso não se faz sem trabalho em rede no concelho e em articulação com a Saúde Pública”.

“Parceiro incomparável”

Carmen Santos, da USP Baixo Vouga da ULS da Região de Aveiro; e o colega de Unidade, Guilherme Queiroz, ficaram encarregues de apresentar um resumo e balanço do Congresso.

O primeiro dia ficou marcado por uma viagem “a todos os passos que a água faz até chegar a nós”, como sintetizou uma das participantes do workshop ‘Ciclo urbano da água’ feito em visita às Águas do Vouga, S.A., bem como uma passagem pela empresa Grohe, citada como exemplar na “proteção dos trabalhadores” pelos momentos, inseridos em horário laboral, de aposta na saúde física e mental dos funcionários.

O arranque não fechou sem a aula prática ‘Entrevista motivacional’, a cargo de Manuela Ferreira da USP Baixo Vouga – ULS Região de Aveiro, resumida como “um encontro com o próprio para melhor trabalhar diariamente” e o workshop ‘Sistemas de informação geográfica em Saúde Pública’ dinamizado por Diogo Caveiro da USP – ULS Alto Minho, focado em ouvir a população para a melhor servir.

A conferência ‘Do gasto ao ganho: investir na saúde da população’, apresentada por Julian Perelman da Escola Nacional de Saúde Pública – Universidade NOVA de Lisboa, foi o destaque do segundo dia. A exposição reforçou a evidência de que “todos os modelos têm problemas e benefícios” e cabe aos agentes que neles operam potenciar as partes positivas para colmatar as negativas, sobretudo através de uma aposta no planeamento e responsabilização de entidades encarregues de os executar.

A mesa-redonda que inaugurou oficialmente o 4º Congresso reuniu Catarina Mendes, vereadora da Saúde; Margarida França, presidente do Conselho de Administração da ULS Região de Aveiro; João Pedro Pimentel, diretor do Departamento de Saúde Pública da ARS Centro e Irene Francisco da Comissão organizadora.

A conversa focou-se na importância da interligação de atores para uma Saúde Pública geral mais completa, âmbito no qual Catarina Mendes referenciou o Centro de Saúde de Albergaria como “parceiro incomparável” de proximidade, essencial para a garantia de condições dignas para a população.

Saúde ao longo da vida

O dia 21, terça-feira, fechou com duas sessões – uma focada na saúde infantil e outra no envelhecimento saudável. A primeira, moderada por Natividade Martins da USP Baixo Vouga – ULS Região de Aveiro, contou com intervenções de Filomena Bastos, responsável CPCJ Albergaria; Maria João Xará da USF Alpha – ULS Região de Aveiro; Mário Branco, presidente da Assembleia Municipal e pediatra de profissão e Salomé Costa do Agrupamento de Escolas da Branca.

Mário Branco reforçou a importância da consulta pré-natal como primeiro passo decisivo para um acompanhamento da saúde ao longo da vida e como momento crucial para sensibilizar os pais e cuidadores para o acompanhamento da criança, numa altura em que estão disponíveis e abertos a ouvir os médicos.

Maria Xará apresentou o modelo CONFORTE, focado em ouvir as necessidades das crianças ao invés de tentar atender aos seus desejos imediatos. Cada letra dá um conselho: C – Converse com a criança para compreender; O – Observe a criança; N – Note as suas emoções durante e interação com a criança; F – Faça uma pausa; O – Organize os espaços para a segurança da criança; R – Redirecione a atenção da criança; T – Tempo juntos, em momentos um para um; E – Ensine sobre emoções.

Na mesa-redonda ‘Envelhecimento saudável da população: que desafios?’, moderada por Dulce Seabra da USP Baixo Vouga – ULS Região de Aveiro, Ana Paula Gomes da ULS Matosinhos deu o exemplo da Unidade como boa aposta no envelhecimento ativo através da integração de equipas multidisciplinares que motivem os utentes a um estilo de vida mais saudável.

Dina Silva, da Unidade de Hospitalização Domiciliária – ULS Região de Aveiro, explanou sobre esta forma “mais humana e acessível” de prestar serviços de Saúde aos idosos e Mariana Letra, gerontóloga municipal, chamou à atenção para a mudança de perfil da população mais velha e deu como exemplos de resposta a esta procura por atividades diversas que mantenham a mente e o corpo ativo algumas das ações promovidas pela autarquia albergariense. A sessão contou igualmente com o contributo de Gonçalo Santinha, do Departamento de Ciências Sociais, Políticas e do Território da Universidade de Aveiro, para uma perspetiva mais académica do tema.

“Juntos somos mais fortes”

No último dia, hoje, 22 de maio, o Congresso abriu com a sessão ‘Evidências que contam: estudos de impacte em saúde’, com moderação de Rui Pedro Leitão da USP Baixo Vouga – ULS Região de Aveiro, e participação de Ana Sofia Morais (CCDR Centro), Emanuel Valpaços (Associação Portuguesa de Avaliação de Impactes) e Teresa Leão (Instituto de Saúde Pública da Universidade do Porto).

Seguiu-se ‘Sustentabilidade ambiental e Saúde Pública: parcerias para um futuro saudável’ com a anfitriã Fernanda Loureiro (USP Baixo Vouga – ULS Região de Aveiro) e Sofia Rocha (Direção-Geral da Saúde / ULS Entre Douro e Vouga). Ambas as sessões avaliaram a interligação entre as necessidades da população e os modelos delineados para ação, com foco em novos desafios como a conjugação dos sistemas com as crescentes preocupações ambientais ou a dificuldade de acompanhar e quebrar cadeias de transmissão de doenças virais.

A fechar, esteve ‘Da antecipação à ação: preparação para fenómenos climáticos extremos’, moderada por José Manuel Cerdeira da USP Baixo Vouga – ULS Região de Aveiro, e com intervenções do painel: António Ribeiro da Autoridade Nacional de Emergência e Proteção Civil da Região de Aveiro, Francisco Rosmaninho do Serviço de Urgência – ULS Região de Aveiro, João Dias do Departamento de Física da Universidade de Aveiro e Paula Vasconcelos do Centro de Emergências em Saúde Pública – Direção-Geral da Saúde.

Os palestrantes frisaram a inevitabilidade do tema – “não é uma questão de ‘se’ mas sim de ‘quando’” nos vamos deparar com fenómenos climáticos extremos – e chamaram à atenção para o excesso de alertas e avisos, muitas das vezes utilizados como sinónimos, correndo o risco de uma banalização e desvalorização dos mesmos. Todos concordaram que os planos existem e Francisco Rosmaninho afirmou que “não há motivos para não estarmos preparados”.

No entanto, garantiram que os modelos só funcionarão no terreno com um reforçar de interligação e coordenação entre entidades prestadoras de socorro e pessoal da área da Saúde, sem esquecer o papel do cidadão como promotor de boas-práticas e cumpridor de regras. “A Proteção Civil somos todos nós”, sintetizou António Ribeiro. 

Carmen Santos e Guilherme Queiroz afunilaram os três dias de Congresso em três grandes conclusões: 1. A certeza da importância da competência e experiência dos agentes de Saúde Pública para que tudo funcione, algo inseparável da necessidade de atualização de conhecimentos e aprendizagens práticas ao longo da vida, 2. A garantia de que “juntos somos mais fortes” em reforço da centralidade de uma boa articulação entre atores no terreno e 3. A autonomia e responsabilização de cada agente e fase do processo como essenciais para o sucesso do resultado final.