Crime – Uma realidade nefasta

Crime – Uma realidade nefasta
Virgílio Bandeira é detentor do curso de Manutenção de Ordem Pública (CMOP)

Virgílio Bandeira, Sargento Ajudante e Comandante de Posto da GNR, entrou em funções no Posto Territorial da Guarda Nacional Republicana de Albergaria-a-Velha há cerca de 1 ano e quis dar continuidade ao trabalho do seu antecessor. Evidencia que a criminalidade no nosso concelho “não é preocupante” e mostra-se satisfeito com os meios, humanos e materiais, do posto onde exerce funções.

Jornal de Albergaria: Sargento Ajudante e Comandante de Posto, Virgílio Bandeira, entrou em funções no Posto Territorial da Guarda Nacional Republicana de Albergaria-a-Velha, há quanto tempo?
Virgílio Bandeira:
Entrei já há 1 ano. Fez um ano no dia 31 de julho. O último local que estive antes de vir para aqui foi em Cesar, Oliveira de Azeméis. Estive lá 2 anos.

J.A.: Faz questão de dar seguimento ao legado que encontrou?
V.B.:
Sim, claro. Há que aproveitar o trabalho já feito e dar-lhe a melhor continuidade.

J.A.: Qual o maior desafio que lhe foi passado?
V.B.:
Habituar-me a uma nova realidade, uma nova área de ação, pessoas que não conhecia de todo e adaptar-me a novos métodos de trabalho. Não há duas casas iguais, digamos assim. Há sempre que nos adaptarmos e aplicarmos os nossos conhecimentos ao local onde estamos a trabalhar.

J.A.: Que tipos de solicitações é que são mais recorrentes no Concelho?
V.B.: Neste concelho existe de tudo um pouco. No entanto penso que os acidentes de viação lideram o número de solicitações. A seguir são as pequenas desordens. Pequenas desordens entre vizinhos, familiares, situações de ruído também temos algumas…

J.A.: Qual o tipo de crime que está no topo da tabela, das estatísticas registadas, pelo Posto de Albergaria?
V.B.: É o furto. Apesar de termos tido bastante sucesso em situações de flagrante delito, quer com a efetivação de detenções, quer com a identificação de presumíveis suspeitos. No último ano temos “sido felizes” nesse campo.

J.A.: Qual o tipo de furto mais comum?
V.B.:  O furto em estabelecimento, seguido do furto em veículo.

J.A.: E que crime surge “em segundo lugar”?
V.B.: O seguinte será provavelmente a violência doméstica. Mas não há muito diferença. Quando digo furto, engloba todo o tipo de furto, desde carteirista, ao furto em residências, aos estabelecimentos, ao furto em veículos e dos próprios veículos…portanto a designação furto alcança aqui uma panóplia de situações que faz com que seja, em termos de ilícito, o crime mais praticado.

J.A.: Relativamente ao ano passado, os crimes de violência doméstica apontam para um decréscimo ou para um aumento?
V.B.: A violência doméstica aumentou em relação ao ano passado. Eu costumo dizer que a violência doméstica é o crime da moda e, no que diz respeito a Albergaria, é um crime que contraria a tendência dos outros crimes. Enquanto a criminalidade de uma forma geral está a diminuir, a violência doméstica está a aumentar. Mas saliento que não é só em Albergaria, tem aumentado também noutros pontos do país.

J.A.: As principais causas deste tipo de violência estão interligadas a que fatores?
V.B.: O facto de nós termos mais registos de violência doméstica não é sinónimo de mais crimes desta natureza. O que acontece hoje em dia, sem prejuízo de eventualmente haver mais crimes, é que as pessoas – quer as vítimas quer pessoas próximas das vítimas como familiares, amigos, vizinhos- têm mais facilidade e mais coragem para as denunciar. Independentemente de hoje em dia haver mais crimes dessa natureza, o aumento de registos também se deve a essa situação. Antigamente as pessoas não tinham tanta facilidade, tanto à vontade para denunciar. Hoje em dia a violência doméstica é um crime público, portanto se houver um vizinho que ligue para aqui a denunciar uma determinada situação nós temos que atuar, não precisamos que seja a vítima a denunciar o caso. Relativamente a esta situação, claro que depois a vítima irá ser abordada e, independentemente de nós termos registado o auto e termos aberto o inquérito e de tudo estar a prosseguir, se a vítima disser “eu não quero nada”, “ninguém me bateu”…é muito difícil!

J.A.: Pressuponha que sabemos que alguém sofre de violência doméstica e porventura poderá haver crianças envolvidas e vemos ali uma situação de grande risco. Mas a vítima nega a situação… Como se deve proceder nestes casos?
V.B.: Mesmo que não tenha sucesso à primeira, mesmo que esse processo “caia” sem ter o sucesso que era esperado, aquilo que eu aconselho é denunciar. Porque se à primeira vez “cai”, à segunda também poderá “cair”, à terceira se calhar já se consegue arranjar qualquer coisa para que ele não “caia”. Muitas vezes quando são situações mais difíceis acaba por ser pela insistência que vamos lá. Até porque depois as pessoas chegam a uma altura que já não aguentam mais e acabam por ceder. Se houver um antecedente de denúncias acaba por ajudar o tribunal a tomar uma decisão e a agir também.

J.A.: Nestes últimos anos Albergaria assistiu a alguns crimes violentos, com utilização de armas de fogo. É uma situação preocupante? Devemos tomar algum tipo de precaução?
 V.B.: São situações que eventualmente podem acontecer e nunca podemos dizer que não acontecem. No entanto, não é claramente motivo para inquietação geral nem tão pouco motiva a minha preocupação diária. São situações pontuais.

J.A.: Ainda assim, consegue-nos explicar os motivos para esta realidade?
 V.B.: Sim. Normalmente são situações de cariz de motivação passional.  Apesar de tudo, penso que a sociedade portuguesa evoluiu bastantes nestes últimos anos. Agora há que continuar a trabalhar, sem dúvida nenhuma, para que as nossas mentes sejam o mais sãs possível e evitar essas situações. Mas volto a dizer que a criminalidade em Albergaria-a-Velha não é preocupante. Há alguns anos atrás, Albergaria-a-Velha, era tomada por traficantes de estupefacientes como um núcleo de distribuição. Em 2017, por exemplo, foi desmantelado uma rede de tráfico de droga que distribuía para vários pontos do país a partir de Albergaria.

J.A.: Esta situação continua a ser preocupante no Concelho?
V.B.:  O tráfico de estupefacientes é algo a que estamos sempre atentos. No entanto, e respondendo diretamente à questão, não. Como disse, foi desmantelado um grupo significativo que abastecia bastantes pontos. Mas para além desse foram desmantelados outros pequenos grupos, situações de pequenos traficantes em Albergaria que culminaram com a detenção dos mesmos, em número mais reduzido, quer em número de suspeitos quer no volume da atividade…uma situação menor mas que também era preocupante e mas que também foi neutralizada e resolvida.

J.A.: Há um aumento do consumo das chamadas drogas leves?
V.B.:  Eu não tenho dados que me permitem dizer se houve ou não um aumento. Mas tenho noção, todos nós temos, que o consumo existe e que é um flagelo que é transversal a toda a sociedade portuguesa. No nosso concelho, em particular, existem mas não tenho dados que me possam dizer que tenham aumentado.

A violência doméstica aumentou em relação ao ano passa-do. Eu costumo dizer que a violência doméstica é o crime da moda e, no que diz respeito a Albergaria, é um crime que contraria a tendência dos outros crimes.— Virgílio Bandeira

J.A.: Como é que os Militares da GNR controlam este flagelo? Têm ajuda/intervenção de outras unidades?
V.B.: No que diz respeito ao consumo, a Guarda Nacional Republicana aposta muito em ações de sensibilização, nomeadamente nas escolas procuramos chamar a atenção para os efeitos nefastos daquele tipo de substâncias. Para isso contamos muito com a nossa Secção de Programas Comunitários, anteriormente designada por Escola Segura. Agora tem um nome diferente porque também tem um âmbito de atuação maior. Inicialmente começaram com as escolas, depois passaram para o comércio e neste momento têm um âmbito de atuação mais abrangente. No que diz respeito ao tráfico, sempre que existem suspeitas/informações as mesmas são remetidas para o Núcleo de Investigação Criminal, que depois procede às investigações que achar necessárias e, em caso de se verificar a veracidade dos factos, normalmente termina com detenções. Quer uma secção quer outra, estão sediadas em Águeda.

J.A.: Qual é a zona/freguesia com maior índice de criminalidade?
V.B.: A freguesia sede do concelho, Albergaria-a-Velha. É a freguesia com mais população, com mais movimento, mais indústria, mais estabelecimentos, mais organismos…portanto acaba por ser o maior alvo.

J.A.: E a freguesia mais segura?
V.B.: Eu não diria freguesia mais segura porque as outras não são inseguras, mas aquela que é mais pacata e que nós somos menos requisitados é Ribeira de Fráguas.

J.A.: Dentro de 10 dias é dado o fecho oficial da época balnear. Uma época em que há um grande intercâmbio de pessoas. Os turistas e também as pessoas que vêm passar férias à Terra Natal e por outro lado, temos as que vão para fora, passar as suas férias. Qual é o balanço, deste ano, dos crimes envoltos a esta época especial?
V.B.: A época balnear em Albergaria não é significativa. Nós não somos uma zona balnear propriamente dita e, portanto, acaba por ser uma época igual às outras. Quer neste ano quer nos anos anteriores não há, nesta época, nada de significativo/de diferente de em relação ao resto do ano.

J.A.: Chave Direta – um sucesso garantido ou ficou aquém das expetativas?
V.B.: O Programa Chave Direta é um sucesso. É um programa que dá tranquilidade às pessoas e ajuda-nos a nós a direcionar patrulhamento para locais que estejam momentaneamente desprotegidos, desabitados. Eu próprio, enquanto cidadão, quando vou de férias e me ausento da minha área de residência adiro a este programa na GNR local. Apesar de tudo, aproveito para dizer que este ano tivemos uma fraca adesão, ao contrário de anos anteriores. Desconheço os motivos mas aproveito para incentivar as pessoas a aderir ao programa. É extremamente simples e é gratuito. É só chegar ao posto da GNR e dizer que em determinado período vão estar fora e nós teremos um cuidado maior com a residência.

Como é do conhecimento do público em geral a transferência de militares para o GIPS, unidade que combate aos incêndios, deixou os recursos humanos da GNR no “fundo do poço”, conforme afirmou Cesar Nogueira, Presidente da Associação Nacional da Guarda ao Jornal i. Se até à data a falta de militares já era um problema identificado, com a transferência de membros da GNR a situação foi agravada.

J.A.: Albergaria-a-Velha também foi lesada neste sentido? Viu alguns membros do seu posto a serem deslocados para o GIPS?
V.B.: Do posto de Albergaria saiu apenas 1 militar para o GIPS. Não foi significativo.

J.A.: Tendo em conta que, em média, existe 153,7 indivíduos por km2 em Albergaria-a-Velha, (dados de 2016 in PORDATA.PT), o posto de Albergaria tem militares suficientes para o índice populacional do concelho?
V.B.: Posso dizer que neste momento não nos podemos queixar. Estou cá há um ano e só falo deste ano que estou cá, mas não me posso queixar do efetivo. Neste momento temos efetivo suficiente para as necessidades.

J.A.: Tivemos conhecimento, pelas vozes de alguns munícipes, que em situações noturnas, algumas chamadas efetuadas para o número de telefone fixo do posto, são atendidas por elementos que se encontram no exterior. Existe aqui o pressuposto do reencaminhamento das chamadas.

Significa que não existem elementos suficientes?
 V.B.: Garanto-lhe que não existe nenhum reencaminhamento de chamadas para o exterior. Nunca existiu. Não sei o que possa ter acontecido para que alguém possa ter pensado isso.

J.A.: Num panorama geral a nível nacional, a falta de militares e os poucos meios físicos, dificultam o desempenho das funções dos militares. A toda esta situação ainda se soma o fato de em muitos postos do distrito de Aveiro existirem poucas viaturas, muitas delas em muito mau estado e com muitos quilómetros. Como é que se encontra a frota deste posto? Precisa de ser renovada ou ampliada?
V.B.: A melhoria do parque automóvel é algo que faz parte das nossas ambições. No entanto, também nesse especto não me posso queixar muito. Temos viaturas em número suficiente. E ainda há menos de dois anos fomos contemplados com uma viatura nova, zero quilómetros. Portanto, nesse campo não me posso queixar muito.

J.A.: Um novo posto está previsto para breve ou ainda é miragem para estes militares que anseiam melhores condições de trabalho, na continuidade de boas prestações de serviços Pela Lei e Pela Grei?
 V.B.: Neste posto, para agora não está prevista qualquer construção. Também não sinto necessidade de um novo posto! Sinto necessidade da manutenção que qualquer imóvel precisa, e isso aí vamos tentanto manter e melhorar. Neste momento, no panorama geral, Albergaria não é um caso preocupante a nível de estruturas.

J.A.: Para terminar, quer deixar algum apelo à população, esclarecer alguma coisa…?
V.B.: Sim. Falei durante a entrevista no Núcleo de Investigação Criminal e da Secção de Programas Comunitários…permita-me também que fale no Núcleo de Proteção Ambiental, o SEPNA, que nos ajuda muito no dia-a-dia. Contamos com a ajuda deles em tudo que tem a ver com crimes e ilícitos ambientais. Portanto é uma equipa que também merece a minha palavra. Também está sediado em Águeda. Para a população, dizer que não tenham medo nem hesitem em nos contactar sempre que precisem. Os guardas existem para ajudar a população. O meu lema, enquanto militar da guarda, acima de tudo é, por um lado fazer cumprir a lei e, por outro lado, apoiar o cidadão. Se nós conseguirmos estes dois itens, conseguimos ter uma sociedade a viver um dia-a-dia muito mais tranquilo.

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